William Faulkner e os judeus – Parte II’

‘A loucura dos grandes deve ser vigiada’, Hamlet. Ato III, cena I.

Em O Som e a Fúria aparentemente não há uma imagem favorável dos judeus. Quando Jason fala contra eles, afirmando que ‘aqueles judeus ricos de Nova York têm de viver como o resto das pessoas’, ou, mais adiante, ‘Qualquer tolo, exceto alguém que não tenha mais o que pensar do que aceitar a palavra de um judeu, poderia dizer que o mercado subia todo o tempo’. Ou ainda “E apenas me dê 24 horas sem nenhum judeu nova-iorquino para me dizer o que vai ser feito’.

Jason expressa sua raiva contra os judeus. Para enfatizar seu ódio, até mesmo as palavras impressas contribuem: judeu, em sua mente, é um ser inferior. Mas devemos observar que Jason é a fúria, não o som. Ele é o homem cujas próprias chances foram cortadas, e a única maneira de expressar sua revolta é através do ódio. Jason é convincente e coerente em seu ataque porque ele mostra a mesma mente deformada quando lida com Caddy (sua irmã), Quentin (sua sobrinha) ou Luster (o menino ansioso e sem um tostão, que vê Jason queimar na sua frente o ingresso para o show que humildemente lhe pedira).

Dizer que Faulkner escreve contra os judeus é tão errado quanto dizer que em Absalão, Absalão ele estaria demonstrando que uma integração entre raças seria desastrosa, como disse T.S. Elliot.

Jason é um personagem perfeito para demonstrar ódio, uma criação poderosa do escritor. No entanto, o autor não pode se confundir com o homem, Faulkner. Não com o homem cuja biblioteca particular incluía obras do historiador judeu Flavius Josephus, um livro que ele mencionaria em seu romance Os Invencíveis, obras do filósofo Jean Paul Sartre, que abertamente apoiava os judeus – chamando-os de povo mais manso do mundo, e inumeráveis outros autores que enfatizam o espírito generoso e inquisitivo do escritor americano que eu tive a honra de pesquisar in loco.

William Faulkner vivenciou a pressão da sociedade sulista, e sua vida muitas vezes evidenciou tal experiência. Muitas famílias tradicionais sentiram-se ultrajadas pelo autor que insistia em oferecer a seus admiradores franceses o que acreditavam ser uma imagem injusta e negativa da civilização americana. Faulkner escreveu com compaixão e piedade sobre a pressão sofrida, mas também com força e verdade, como se evidencia em muitos de seus trabalhos.

Em Santuário, Clarence Snopes, um senador corrupto, fala contra os judeus após afirmar que: ‘Eu sou americano…Nasci americano… Mas o que há de mais baixo, mais rasteiro neste mundo não é um negro; é um judeu…um judeu é o que há de mais baixo na Criação… e o judeu mais baixo é um advogado judeu’.

A mente de Snopes é tão torta quanto a de Jason. Através dele, o autor não denuncia o judeu, mas sim um grupo de fanáticos que reagiriam furiosamente contra o que consideravam ser um plano para tomar o país – ideias falsas e torpes espalhadas entre os antissemitas. Se o primeiro alvo da Ku-Klux-Klan eram os negros, a instituição logo ampliou seu escopo para atacar os judeus, o pecado, o papa, numa tentativa de reativar a imagem do Anticristo medieval. Muitos políticos e membros respeitáveis da sociedade americana sucumbiram ante os tentadores presentes recebidos dos membros da Klan, oferecidos em troca de ganhar aliados, embora um número muito maior de americanos considerasse ultrajante a sociedade secreta racista e merecedora de condenação pública.

Snopes precisa deixar claro que é americano, nascido americano, para enfatizar sua condição e contratá-la com a de imigrante do judeu. Entretanto, o racismo e a corrupção de Snopes (que inclui ódio contra negros) parece dissipar a força de suas palavras contra os judeus, enquanto o ridículo de seu comportamento o transforma na figura de um quase bufão.

Snopes também rejeita a ideia de que os advogados judeus possam competir com os que ele chama de ‘Americanos – e brancos”, e mais uma vez o romance estará enfatizando sua inveja, mesquinhez e ridícula imagem. Ele necessita pensar no negro e no judeu como seus inferiores para que sua autoconfiança seja mantida, ainda que artificialmente.

Como um senador que pode facilmente corromper pessoas, ele igualmente mostra sua fúria ao ver falharem seus métodos, representando o demagogo que manipula multidões porque é na multidão que a força e a vontade do indivíduo desaparecem. Parece-me claro que Faulkner não exercita antissemitismo, mas sim expõe o barulhento, furioso e imoral tipo de político que tinha forte influência no Sul do país. Em termos mais universais, seu trabalho lança luzes sobre outros países onde a ignorância e a baixa qualidade de educação permitem a proliferação de figuras depravadas como a de Clarence Snopes.

E já que falamos em corrupção, lembremos Shakespeare: ‘A loucura dos grandes deve ser vigiada’, Hamlet. Ato III, cena I.

Que outra coisa além de loucura pensar do quadro do PTB, que após insistir por meses na indicação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho, quando ela repetidamente fez questão de provar que não estava apta para o cargo, vem com um adolescente para gerir um montante de quase R$500.000.00 reais, apadrinhado por quem almeja o poder de Roberto Jefferson no partido? A loucura durou, no segundo caso, menos tempo do que a anterior, pois o quase menino foi despachado e afastado do cargo milionário, quem sabe para ver se estuda e passa na matéria na qual ficou em segunda época no Ensino Médio. Só faltava essa!

E o STF, quanta pressão sobre sua presidente! Gilmar Mendes, o perigoso, mudou de ideia sobre a prisão após a condenação em segunda Instância e agora insiste, junto com alguns pares, (mais parecem ímpares) na revisão –DE NOVO – de matéria já decidida há pouco tempo, justamente quando o ex-presidente Lula corre o risco da prisão iminente. Sei não, mas já se lê, aqui e acolá, que alguns Ministros do STF têm o rabo preso (Toffoli já foi citado por ter a reforma de sua mansão paga por outrem – Lewadowski prescinde de apresentação, e da vida privada de Gilmar lê-se coisas surpreendentes), ou enrolado nas longas togas, e por isto mantêm respeito quase religioso (ou temeroso) por alguns corruptos condenados. Que dizer de Renan Calheiros, que ostensivamente não recebeu o oficial de Justiça e ainda avisou que levará para a a cadeia muita gente se não o deixarem em paz. Pode isso?

E que dizer do presidente Temer, ficando possesso e mandando carta para a presidente da PGR que ele mesmo colocou no cargo (ela fala manso e parece tão suave) e não consegue manipular, como faz com alguns do STF, de seu Ministério, e do Congresso? Pessoas públicas são públicas in totum, e devem insistir em mostrar transparência total. O contrário evidencia responsabilidades nada republicanas. Qual delas vai ser?

E teve o médico ameaçando o jovem residente, pedindo que desistisse da vaga conquistada em favor de seu próprio filho. Médico? Quanta mesquinhez!

A corrupção é mesmo uma praga que se alastra como Medusa por todos os lados e atinge todos os campos, uma loucura plantada por poderosos de ambição ilimitada e que espalha, de quebra, a violência por toda a população indefesa, sobretudo nas crianças. É.. A loucura dos grandes precisa ser constantemente vigiada por todos os brasileiros, e para que a cura aconteça, precisa ser cortada pela raiz, no espaço onde nasce e é regada desavergonhadamente pelos mancomunados com o retrocesso do Brasil.

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