VAR (árbitro assistente de vídeo)

Entre as inovações adotadas nessa Copa do Mundo, uma que me encantou foi o uso do árbitro assistente de vídeo, que se comunicava com o juiz de campo, para passar alguma informação de detalhe não observado, durante o andamento do jogo.

A um gesto, que lembrava a tela da TV, o árbitro de campo verificava o vídeo e validava ou não a sua decisão.

Fiquei imaginando como essa prática poderia, ao longo da história, retificar algumas situações individuais e sociais. Quantos ditos e não ditos, quantos feitos e não feitos poderiam ter sido evitados.

O reexame de uma questão, mesmo num clima ainda pulsante do acontecimento, daria a possibilidade para uma reflexão, principalmente, das consequências de se persistir numa tomada de atitude. Não só a tecnologia, mas o olhar do outro, a palavra do outro ajudariam a se chegar a uma decisão, que, em princípio, seria mais acertada.

Para ficar só nos últimos dias, o agir sob impulso do treinador levou, por exemplo, aquele grupo de crianças tailandesas a uma situação dramática. Talvez uma troca de mensagens ou imagens, ainda na entrada da caverna, poderia abortar a iniciativa, poupando o sofrimento de todos os envolvidos.

Baixando o nível e mudando para a política brasileira, as decisões monocráticas em qualquer instância judicial, sem direito a VAR, vem corroendo a nossa República. Que vontade de pedir o vídeo, para que as decisões espúrias fossem suspensas ou pelo menos revistas. Causa asco o uso e abuso dos meandros da lei, para beneficiar os malfeitores, dando as costas para a sociedade.

O VAR foi introduzido nas partidas de futebol para dar mais transparência às decisões tomadas. Da mesma forma, deveria ser garantida a sua presença nas cortes e no Congresso, para que suas excelências tivessem uma última oportunidade de refletir, ouvindo outras vozes, indo ao encontro do interesse coletivo.

Elevando para o nível pessoal, como seria bom atrasar, por instantes, decisões e ações, fruto de cabeça quente da ocasião, que nos leva a cometer injustiças, difíceis de ser reparadas. Principalmente, quando se é jovem e meio dono do mundo e as escolhas são infinitas. Mas, que de vez em quando, bem que bate um “ah se eu tivesse pensado um pouquinho…”

No outono da vida, quando se afunila o horizonte, quando o futuro se torna cada vez mais incerto, o VAR já passa a fazer parte da nossa consciência, nos lembrando o permitido e o proibido, o até onde ir e como recuar com dignidade. Razão e emoção já estão mais equilibradas, para que a tomada de decisão seja amadurecida com mais vagar. Na verdade, já conhecemos o vídeo quase de cor.

Mas, na verdade mesmo, eu preferia fazer parte do grupo, que precisa mais do VAR para ir levando a vida. A sua tela é muito mais colorida.

Comente