Vai votar em quem mesmo?

V. retirou o tablet da bolsa. Acompanhou a bandeja sobre a esteira até que entrasse no raio X. Em seguida, recuperou o cartão de embarque, o cinto, o casaco, a echarpe, as moedas e principalmente o relógio. Sem o relógio no pulso ficava nervosa e desconcertada. Verificou o horário do embarque procurando respirar com mais serenidade. Como planejar uma reunião complicada daquelas no espaço de tempo Rio São Paulo? Havia motivos para estar preocupada; havia motivos para estar feliz. Não pensava em nada além, nada que não fosse felicidade. “Sei que posso”. Ajeitou a camisa que deslizava para fora da saia, a camisa que deveria ficar um pouco para fora, mas não muito. Na conta exata. Caminhou até o painel e conferiu o portão de embarque. Sabia que os voos costumam atrasar e que muitas coisas na vida não dependem do nosso querer. Queria ser surpreendente. Nunca ser insegura. Jamais falhar. Não perder a hora, o momento. Arriscar de vez em quando. Queria acertar hoje, amanhã e depois também. “Vai pegar esse voo, chefe?” Então sentaram nos primeiros assentos da classe executiva com o tablet e o jornal nas mãos. Tudo, a saia e a camisa ao seu jeito. Sentia ser responsável pelo silêncio e, ao não sustentar, como se todo silêncio tivesse que ser obrigatoriamente preenchido, de repente, V. deixa escapar: “Vai votar em quem mesmo?”

Comente