Vacina

Após assistir, dia após dia, as manchetes assustadoras na mídia, sobre os casos de febre amarela em nosso país e agora, também, no estado do Rio de Janeiro, resolvi me vacinar.

Porém, o que parecia ser uma tarefa simples, virou uma maratona pelos Postos de Saúde da cidade, onde a vacina está disponível.

Descobri que para conseguir o direito de me vacinar, precisaria chegar cedo no Posto, quer dizer, muito cedo.

-Você precisar chegar no máximo, ás sete da manhã –deu a dica, minha vizinha de porta, que tinha ido antes de mim ao Posto da Gávea.

-Tão cedo assim? – perguntei, incrédula.

-Eu cheguei 7h30 e só saí de lá 12h30 – respondeu.

Bem, já que era para acordar cedo, qual a diferença de acordar, 5 ou 6 da manhã?

Acordei as 5h30, tomei meu café e as 6h10 já estava a caminho do Posto. Cheguei 10 minutos depois e, inacreditavelmente, lá estava ela….a fila.

Assumi o 61º lugar e após alguns minutos, um funcionário do Posto abriu o portão e todos em fila indiana foram entrando. Alguns metros de caminhada, paramos. A essa altura, já havia umas 20 pessoas atrás de mim.

Agora, o rapaz do Posto pedia a todos que fossem caminhando de ré, pois estávamos direcionados para a porta errada.

Não entendi porque ele não havia direcionado a fila para o local correto, mas estamos no Brasil, o país da fila, e isso era apenas um detalhe.

Assim, como todos à minha frente, virei para trás e fui pedindo para o próximo dar um passinho para trás.

Porém, muitos não entenderam o que estava acontecendo e ao invés de irem para trás foram para frente.

A primeira confusão logo começou com um rapaz super estressado que  esbravejou:

-Espertinhos! Vocês pensam que vão ficar na minha frente? – Ameaçava.

Algumas pessoas ficaram indignadas com os insultos e revidaram os xingamentos. Eu, começando a me arrepender de estar alí, aquela hora da manhã.

O “deixa disso” de alguns conseguiu amainar a ira do cidadão que reconquistou o seu lugar na fila.

Após uma hora em pé sob o ataque de mosquitos (borrachudos, espero) em minhas pernas, um novo episódio ocorreu. Dessa vez com o cidadão nº 3 da fila.

Uma mulher loura, que deveria ser a esposa, com dois rapazes, que deveriam ser os filhos, passaram, sem qualquer constrangimento, por todos e postaram-se ao lado do cidadão no inicio da fila.

Desta vez, uma senhora, a do número 40, deu inicio ao segundo “barraco” do dia:

-Tá pensando o quê? Só porque é madame acha que pode furar a fila? – Espumava pela boca.

Silêncio

-É com você mesmo, sua loura desbotada! Não tem vergonha de furar a fila? – Continuava sob os olhares atentos de todos.

A tal da loura fingia que não era com ela e para não chamar atenção, sentou de costas para o resto da fila.

Mas a senhora reclamona, não deu trégua:

-Você acha que vai chegar depois de mim e ficar na minha frente?

Expectativa

-Sabe como resolvemos isso lá na minha comunidade?

Pânico

Sinal de alerta! Algumas pessoas, logo se abaixaram….

A loura, então, levantou e começou a revidar os insultos, sendo logo vaiada por todos.

Lá de trás, veio o reforço da senhora barraqueira, duas mulheres bem invocadas, que gritavam também palavras de ordem. As três ficaram logo amigas.

Mas apesar da fumaça, não houve fogo, para o alivio de todos e meu, principalmente, e faltando meia hora para a abertura do Posto, uma servidora apareceu com fichas para distribuir aos primeiros da agora, imensa fila.

De novo, recomeçaram as reclamações contra a “furona” da fila e as pessoas exigiam que a servidora do Posto tomasse uma atitude, mas a pobre mulher, mal conseguia falar.

Para intimidá-la, uma das invocadas pegou o celular e começou a filmar.

-Está filmando, o quê? – Perguntou a servidora.

-Estou filmando essa bagunça! Por quê????

-Você me respeite porque eu sou uma servidora.

-Servidora? Então se dê o respeito sua &**()_“+(U@#$%¨&

Nova confusão…

A essa altura, já estava achando que iria haver uma quebra-quebra, mas logo tudo voltou ao normal (?)

A servidora recomeçou a distribuir as fichas e parou no rapaz estressadinho (o primeiro, lembram?).

Ele não parava de perguntar e algumas pessoas já estavam impacientes com a demora, até que um gritou:

-Chega de perguntar! Deixa a moça distribuir as fichas.

Pronto! Começou uma nova troca de insultos:

-Pergunto o que eu quiser. Quantas vezes eu quiser. Vai encarar?

A turma do “deixa disso” mais uma vez entrou em ação e, finalmente, a servidora conseguiu seguir adiante.

A vacinação começou e a família furona de fila foi uma das primeiras a ser vacinada. Assim que saíu, a senhora barraqueira não deixou barato e praguejou:

-Tomara que a vacina dê “ziquizira” sua loura oxigenada!

A loura, fez o gesto de uma banana e sumiu…

Finalmente, após duas horas em pé, chegou a minha vez. Uma picadinha e uma ardência foi tudo que senti.

Ao chegar em casa, ao abrir o jornal, uma das manchetes dizia que não havia necessidade de urgência para vacinação, caso a pessoa não fosse para lugares de risco.

-Risco? – pensei – o Posto de vacinação é o lugar de maior risco que poderia ter estado nos últimos dias.

Ainda bem que me vacinei.

 

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