Um pouco de Philip Roth

 

O romancista judeu americano Philip Roth morto no último dia 22 de maio, aos 85 anos, foi enterrado no cemitério Bard College, em Nova York.

Roth decidiu há cerca de 10 a 15 anos atrás ser enterrado no Cemitério Bard College, onde ele poderia estar perto de seu amigo Norman Manea, um autor romeno-judeu. Roth também era amigo do presidente do Bard College, Leon Botstein, que também é judeu.

“Ele disse que queria ser enterrado perto de judeus, para ele ter alguém com quem conversar”, disse Bailey.

A autora e filósofa judia Hannah Arendt também está enterrada no cemitério Bard College, ao lado de seu marido, Heinrich Blucher.

“Ele gostava dos judeus como seres humanos. Ele gostava de seu calor, ele gostava da devoção religiosa de seus amigos, da qual ele se divertia muito, especialmente em ‘O complexo de Portnoy’ ”, disse Bailey, referindo-se ao romance de 1969 de Roth que retrata as sessões de terapia de um judeu sexualmente frustrado.

Quando Philip Roth disse à revista francesa “Les Inrockuptibles” que abandonaria a literatura, em novembro de 2012 – “a verdade é que cansei”-, a descrença foi generalizada. Certamente um romancista que se dedicou de forma tão tenaz à sua arte como Roth não podia estar falando sério. Bem, ele estava.

A última palavra de Roth foi uma citação do boxeador norte-americano Joe Louis, dizendo que “fiz o melhor com aquilo que tinha”: uma declaração tipicamente sagaz e consciente. É uma boa aposentadoria. As vidas literárias muitas vezes acabam mal, com problemas de saúde, rejeição e abandono, e o último ato de Roth confere papel central a ele mesmo – e o que se poderia esperar? Em sua longa e prestigiosa carreira literária, Roth, 85, se dedicou a se reinventar de incontáveis maneiras, todas provocantes.

O escritor viveu muitas vidas literárias. Primeiro a do garoto prodígio, autor de “Adeus, Columbus” (1959), um dos mais brilhantes romances de estreia na era do pós-guerra. Depois ele se tornou o “enfant terrible” de “O Complexo de Portnoy” (1969), uma sensação na literatura de humor do final dos anos 60, definida pela revista “Life” como “chocante, provocante e selvagem”. Consegui fama literária”, ele relembrava. “Consegui fama sexual. E conseguiu fama como maluco. Recebia centenas de cartas, cem por semana, algumas com fotos de garotas de biquini. Tive muitas oportunidades de arruinar a minha vida”.

Por isso ele começou a se isolar em uma especie de rancor e se tornou o escritor satíricoexperimental de “Our Gang” (1971) e “The Breast” (1972). Em seguida, no começo da meia-idade, Roth continuou a explorar o seu eu turbulento, em “My Life as Man” (1974) e “O Professor de Desejo” (1977). Ainda mais tarde, ele nutriu um alter ego literário mais seguro em seus romances protagonizados por Nathan Zuckerman. O melhor ainda estava por vir. Em 1997, já bem a caminho dos 70 anos, Roth iniciou uma sequência de romances que reinventavam detalhadamente o passado recentes dos Estados Unidos, livros que lhe valeriam elogios dos críticos dos dois lados do Atlântico. Em “Pastoral Americana”, “Casei com um Comunista”, “A Mancha Humana”, “O Animal Agonizante” e “Complô Contra a América” o trabalho dele refutou vigorosamente o amargo comentário de Fitzgerald de que “nas vidas americanas não existe segundo ato”.

Nenhum escritor recente passou por tal florescimento em momento tão tardio de sua carreira. O resumo de Roth sobre essa transição dos relatos pessoais para os relatos públicos foi que “no começo era uma questão de ele (Roth) amadurecer, se desenvolver como escritor. Depois o assunto já não era ele. Ele passa a ser o ouvido, a voz, o observador; ele é o olho”. Antes de se aposentar, Roth adotou um tom de despedida (“Fantasma Sai de Cena”, 2007), mas ainda desafiador (Indignação, 2008).

Ele reportava que, na velhice, “a última coisa que eu desejava era me fazer mais visível do que já era. A visibilidade me enervava. Por isso me mudei para o campo”. Roth se retirou para uma casa de fazenda isolada em Connecticut. Ele descrevia, as condições sob as quais escreveu a ausência de romances iniciada por “Pastoral Americana”. “Para mim é muito aprazível viver na beleza natural do lugar que tenho em Connecticut.”

“Trabalhava durante o dia, me exercitava no final da tarde” – ele nadava regularmente – “e assim não perdia contato com aquilo que eu fazia o dia todo”.

Por muitos anos, isso significava escrever em pé diante de uma mesa de trabalho especial (para poupar a coluna), “Dia sim, outro também. Quando eu tratava, saia de casa e caminhava pelos bosques. Passeava por 10 minutos e voltava para tentar outra vez”. Roth citou seu personagem Zuckerman para explicar sua dedicação monástica: “Acredito que só devemos ler os livros que nos mordem, nos espicaçam. Se o livro que estamos lendo não causa a sensação de uma pancada na cabeça, por que lê-lo?

Em 1976 ele se mudou para Londres para viver com a atriz Claire Bloom. Mas não se sentia em casa. “Eu não consegui escrever um livro longo sobre Londres”, ele disse. “A Inglaterra fez de mim um judeu em apenas oito semanas”. Quanto a isso, a conversação de Roth envolve território muito mais contencioso, por exemplo as repetidas alegações de misoginia que foram feitas contra ele. Mas um detalhe fascinante é omitido. De acordo com o jornalista Yentob, quando Roth compareceu à festa de 70º aniversário do maestro e compositor Leonard Bernstein, o lugar dele na mesa era ao lado de Ava Gardner, que há anos vivia discretamente em Londres. Gardner, que foi casada com Frank Sinatra, fez uma piada com Roth – “fui casada com um garoto de Hoboken” (cidade natal de Sinatra, em New Jersey, próxima de onde Roth nasceu) – , e os dois passaram horas em uma conversa intensa. No curso de sua entrevista com a BBC, Roth desafiou Yentob – “vamos lá, pergunte sobre Ava Gardner” – mas ao que parece a discrição prevaleceu.
“Teremos de deixar o assunto para Blake Bailey (o biógrafo de Roth)”, diz Yentob, com reservada ironia.

Roth jamais pareceu tão relaxado ou contente. Em geral uma mistura de vaidade, otimismo e espírito desafiador, combinada a necessidades econômicas brutas, leva os velhos escritores a persistirem no jogo por muito mais tempo do que deveriam. Roth escapou disso. Quando contestado com uma declaração sua, em 2004, de que “a vida sem escrever não vale a pena”, ele respondeu que “eu estava errado. Cheguei ao fim. Não há mais coisa alguma sobre o que escrever”. Com súbita franqueza ele acrescenta que “eu tinha medo de não ter nada para fazer. Tinha terror disso, na verdade, mas sabia que não fazia sentido continuar. Meu trabalho não melhoraria. E para que piorar? Assim…”

“Parti para a grande tarefa de não fazer nada. Os últimos três ou quatro anos foram muito divertidos”. Boa parte desse período foi dedicada a uma nova reinvenção – ajudar Bailey, que diz que vai concluir a biografia de Roth em 2022. “Farei o que puder para ficar vivo até 2020, mas nada de me pressionar. Agora que não escrevo mais, só quero tagarelar. Tchau , tchau”.

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