Um bom “Conselho”

Em 2015, Flavio Stanger foi condecorado com a “Medalha Pedro Ernesto” pelos serviços prestados à frente do Conselho Deliberativo da FIERJ

Presidente do Guemach Rio, Vice presidente da Sinagoga Beit Lubavitch, Presidente do Conselho Fiscal e membro do diretório de pais do Colégio A. Liessin, ativista do Fundo Comunitário, conselheiro da Sinagoga Beth El, diretor da Sinagoga Edmond Safra, diretor da Macabi Rio, presidente do Conselho Deliberativo da FIERJ. O Engenheiro Flavio Stanger pode se orgulhar do tempo doado às causas comunitárias.

Só no Conselho Deliberativo da FIERJ foram  4 anos em duas gestões consecutivas, mas muitas pessoas ainda acham, que o papel do Conselho Deliberativo da FIERJ é meramente figurativo. Se você é uma dessas pessoas,  está na hora de mudar os seus conceitos e ler a entrevista, que publicamos, com exclusividade, a seguir. Vamos lá?

.Foram 4 anos consecutivos dedicados à uma importante causa comunitária. Foi muito trabalho?

– Sem dúvida. Durante a reforma do estatuto na gestão passada, eu queria mudar o tempo do mandato para 3 anos consecutivos, sem reeleição. No caso de 2 anos de gestão, acredito que quando o presidente começa a entender o mecanismo da instituição, se aproximar de políticos e autoridades, o tempo acaba e é hora de passar o bastão ou buscar uma reeleição. Por outro lado, 4 anos para um trabalho voluntário como a FIERJ é muito tempo e o desgaste acaba sendo inevitável.  O segundo mandato de uma gestão, nunca é tão bom quanto o primeiro, digo isso por mim mesmo.

.Você acha que isso ocorre, também, em âmbito geral?

– Sim, no meio político, ocorre da mesma forma. Se você comparar os governos de Dilma, Lula, Fernando Henrique, enfim, todos eles caíram de produção no segundo mandato.  O único caso, que me recordo, onde o segundo mandato foi melhor que o primeiro, foi o do ex prefeito Eduardo Paes, mas isso devido às Olimpíadas. Há uma acomodação normal.

.Conhecemos muitas instituições, inclusive as judaicas, onde os presidentes perpetuam-se nos cargos. A que você atribui isso?

-Algumas pessoas ocupam cargos voluntários e desenvolvem uma história de amor com aquela instituição misturada com vaidade. A pessoa quer sempre receber “kavod” (prestígio) e por isso se apega ao cargo a ponto de não possibilitar a renovação. Aqui faço uma crítica velada a todos dirigentes que ficam mais de dois mandatos no cargo.  Todos  sabem do meu amor pelo Guemach (Fundo de Assistência Comunitária), mas  após dois  mandatos passei o bastão.

.Você é um ativista atuante, porém muito discreto. Isso é a essência do voluntariado?

-Tenho um estilo mais reservado e, realmente, não gosto de aparecer. Quem tem que aparecer é o executivo, o conselho não deve concorrer com a diretoria, mas no meu caso tentei fazer da cadeira do presidente do conselho,  uma cadeira forte e desejada. Na primeira gestão no Conselho Deliberativo fui o mais votado e como estava num período sabático por ter vendido minha participação societária num banco de investimento, me candidatei para a presidência. Já na segunda gestão, após ter feito uma grande reforma estatutária, o Sergio Niskier me intimou a continuar, dizendo que eu tinha que ficar mais 2 anos para implementá-la.

.O presidente do Conselho Deliberativo é a pessoa que recebe o maior número de votos nas eleições?

-Não, necessariamente. No meu segundo mandato, em 2016, não disputei as eleições, pois já tinha me tornado conselheiro vitalício. Naquela ocasião, o Felipe Cusnir, que é jovem e atuante foi o mais votado entre os conselheiros  e acabou sendo o 1º secretário da mesa junto com meu vice João Chachamovitz e a Regina Lupu, os quais eu só tenho a agradecer.

.Quais são as principais atribuições do Conselho Deliberativo?

– O Conselho Deliberativo é órgão máximo da federação, assim como numa empresa , “manda” no executivo,  fiscaliza as atividades da diretoria, pode inclusive tornar sem efeito atos do executivo, se assim decidir. O conselho tem a responsabilidade de olhar de forma estratégica o ishuv, enquanto o executivo foca mais o tático e a execução.  Entre suas atividades rotineiras tem a aprovação do planejamento anual com devido orçamento e encaminhar assuntos comunitários dos mais diversos que são debatidos e recomendados por vaadot (comissões) temáticas.

Flavio Stanger, entre dirigentes da comunidade judaica

.Você poderia citar um exemplo, na prática, de atuação do Conselho?

– Um exemplo s recente foi o caso de instituições fundadas por Bnei Anussim – descendentes de judeus convertidos – que querem ser reconhecidos como judeus e participar da vida comunitária. Nesse sentido, criamos um grupo de trabalho com integrantes de todos os segmentos e idades da nossa comunidade para tratar desse assunto. A partir daí foi formulado um documento, de como tratar este tema, que deverá  ser colocado em prática na próxima gestão.  Há muitos anos percebi que a FIERJ tinha dificuldades para lidar com essa questão, mas não sou de fugir dos problemas e dos desafios, por isso coloquei-o em pauta.

.Cite um exemplo de Planejamento Estratégico desenvolvido pelo Conselho.

– A Yeshiva de Petrópolis, estava com um saldo deficitário e fizemos um planejamento estratégico para que saldasse as dívidas e pudesse funcionar bem durante 3 anos. Conseguimos na época com ajuda do Chevra Kadisha, que custeou uma consultoria para levantar R$ 400 mil,  equacionar o problema financeiro em curto prazo. Agora que estes 3 anos estão  se fechando, deve ser feito um novo planejamento para sua  manutenção nos próximos anos.

Outro exemplo, o Lar de Idosos de Jacarepaguá, que hoje se chama Residencial Israelita, estava isolado da comunidade e interferimos para ajudá-los a se reerguer.  Estamos fazendo a transferência da Residência Assistida Israelita – RAI para ocupar um espaço ocioso dentro das instalações do Lar e convidamos gestores de primeira linha como o Luiz Fernando Froimtchuk, que já está fazendo significativas mudanças nessas duas instituições judaicas.

Também na comunidade judaica de Niterói introduzimos o Projeto Aliança, que reúne as três instituições dessa cidade: Hebraica, ADAF e Centro Israelita. Contratamos um rabino pela primeira  vez na história de Niterói, que realizava os serviços religiosos para esse pequeno grupo, inclusive dando aulas de bar mitzvá.

A ideia é sempre olharmos o longo prazo e ver como começaremos a implementação no curto prazo. Temos ainda alguns casos grandes de reengenharia comunitária que gerarão frutos nos próximos 2 anos e que estão em processo de negociação final, que infelizmente, não posso abrir ainda, mas que no momento certo, o novo conselho irá analisar.

.No caso da Hebraica de Niterói, onde houve um grande embate sobre a venda do imóvel, de que forma o Conselho atuou?

– Hebraica, Adaf e Centro Israelita não tinham uma boa relação com a FIERJ desde a gestão do Sergio Niskier.  Conseguimos fazer um planejamento estratégico para os próximos anos e evitar a venda desse imóvel. Nosso relacionamento com as três instituições começou desconfiado e truculento,  mas terminou maravilhosamente bem. Na realidade, a venda pode até ser positiva pois temos lá mais metro quadrado que judeus frequentando, porém o destino dos recursos deve ficar dentro da comunidade judaica para se fazer sempre o bem. Tentamos a fusão das três instituições, que continuo achando o caminho natural deste importante ishuv. A próxima gestão deve ter uma atenção especial com Niterói que tem ainda uma linda comunidade e não podemos deixar ela sangrar ainda mais. O Conselho deve cuidar para que o patrimônio, que é imenso, de nossas federadas não seja sucateado.

.A crise econômica é um fato em nossa cidade. De que forma o Conselho tem atuado para amenizar essa situação?

– Procurando o bom senso e trabalhando com a união. Na Tijuca, por exemplo, temos quatro sinagogas sefaradim num raio de 1 km e fizemos eventos reunindo todas elas no Monte Sinai. Acredito que no futuro, a Bnei Sidon, o Beirutense , o Templo União Israelita e a Maghen David poderão se transformar num  grande Centro Sefaradita da Tijuca. Chegamos a implementar divisão de minian, shabatot, mikvê  etc, entre elas e acho que será inevitável a fusão das quatro nos próximos anos para que não acabem virando museus.

.Em relação aos clubes judaicos, o que foi feito de relevante em sua gestão?

– A Macabi Rio não era federada e hoje é,  graças ao apoio e voto de 100% dos clubes que aceitaram a instituição como uma parceira e não concorrente.  Os clubes entenderam que a Macabi pode trazer eventos, frequência e consequentemente sócios, por isso, considero essa conquista muito importante. Hoje deixo a FIERJ tendo a certeza que a relação da Macabi com os clubes e seus presidentes nunca foi tão boa. Enfatizo que a parte mais importante do trabalho do conselho é cuidar do conflito entre suas federadas.

.Como você avalia a sua gestão?

-Fiz 10% do que sonhei. Faltou muito. Gostaria de unir o Museu Judaico com as bibliotecas Bialik e ASA no subsolo do Grande Templo, mas não tive tempo para focar nesse tema. Existe um projeto pronto, lindo, da Alice Geiger que foi financiado pela família Klabin. O Flavio Kelner, que é arquiteto,  foi comigo até lá e imaginamos que  poderíamos ter no mesmo local, uma sinagoga linda com frequência de turistas, alunos, historiadores e gente dos mais diversos segmentos, que estariam, com certeza absoluta, na rota do turismo do Rio.

Por outro lado, me sinto orgulhoso de ter sido o Presidente fundador do Guemach, o Fundo de Assistência Comunitária , que concedeu mais de R$ 4 milhões em empréstimos para pessoas com problemas financeiros. Também, na minha gestão, criamos a CECOM (Central comunitária) que presta todos os tipos de Assistência Social. Uma pessoa da comunidade que chegar na FIERJ em busca de assistência poderá,  hoje, ser endereçado para questões de empréstimo, emprego, saúde, residência de idosos, bolsas de estudos nos colégios judaicos , linkando essa demanda com nossas várias instituições, que as vezes, nem nós mesmos  sabemos que existem.

Tivemo uma reunião com todos ex presidentes do executivo e deliberativo da FIERJ onde surgiram algumas  ideias, como a criação do Kabat Kehilati para cuidar da segurança comunitária  e a volta do Programa Comunidade na TV no canal aberto com a proposta de ser custeado por anunciantes. Infelizmente, o executivo não correu atrás de novos anunciantes e só a Amil está patrocinando o programa, mas acredito que com o novo executivo, recém eleito, novos anunciantes serão captados.

No balanço das contas, acho que o resultado foi positivo e tenho certeza que o novo executivo, assim como o deliberativo irão acelerar muito este trabalho, que é a base para a sustentação de uma comunidade forte e unida.

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