Sonhar um sonho impossível

Nasceu em uma família humilde, mas trabalhadora. Nunca teve um quarto para chamar de seu. Desde pequenino aprendeu a dividir as suas roupas, os seus brinquedos e a sua comida. Mas sempre foi uma criança feliz.

Gostava de empinar pipa e de correr no skate de um vizinho. Não tinha dia em que ele não tivesse de cuidar de arranhões nas pernas e braços dele e dos amigos. Dizia sempre que quando crescesse seria médico.

Na verdade, não era muito estudioso, mas sempre passava de ano na escola pública, perto de sua casa. A matéria que mais gostava era ciências, na parte do corpo humano.

Já adolescente, ia levando a vida frustrado, às vezes, com vontades não contempladas, pela dificuldade financeira da família, que só fazia aumentar.

A mãe, que era faxineira, teve que parar de trabalhar por conta de um problema de coração, que tornou impossível ela ir e vir nos trens apertados da Supervia.

O pai, que era ascensorista numa universidade particular, ganhava pouco mais do que o salário-mínimo. O que salvava o orçamento da casa era a aposentadoria do avô, que tinha sido cabo da Marinha Mercante.

Quando chegou ao final do nível fundamental na escola teve até festa. A mãe fez um bolo de fubá, que estava uma delícia. Teve até Tang de laranja numa jarra de vidro, que tinha sido ganho de uma madame.

Naquele dia, todo mundo lhe perguntava o que ele ia estudar depois. Ficava feliz em dizer que ia fazer o curso Médio e um profissionalizante de técnico em enfermagem. Mas o seu sonho mesmo era ser médico. Mas, ele aprendeu com a sua mãe, de ir até onde as pernas alcançam.

Aí chegou a pandemia. A escola fechou. E ele se agarrou no celular, que não era grande coisa. Descobriu um ponto de Internet num beco e dali ficava plugado. Sabia que era o tráfico que pagava a Internet ali, para fazer os seus negócios.

Mas, na verdade, cansou de ficar em casa sem fazer nada. Comentou com o seu tio o seu desânimo e a sua vontade de ganhar algum dinheiro. Ele, que gostava muito do sobrinho, lhe ofereceu o seu carrinho de pipoca, que não estava nenhuma maravilha, mas quebrava o galho.

Muito orgulhoso de sua profissão de pipoqueiro, o velho lhe passou todas as tretas, enquanto davam, juntos, uma geral no equipamento. Passaram uma tarde toda dando lustro na panela. Ficou um luxo.

Seu tio ainda falou com o porteiro amigo de um prédio do centro, onde ele guardava o carrinho, para facilitar os negócios. Mais do que isso, ainda pediu a um vizinho que transportasse o carrinho de pipoca até o endereço do tal porteiro.

Ficou comovido com o entusiasmo do irmão da sua mãe. Era como se ele quisesse deixar um herdeiro de sua profissão. No caminho para o centro ia refletindo sobre a guinada do seu rumo. De médico a pipoqueiro em dois tempos.

Ele, todo pimpão, com seu uniforme de pipoqueiro começou na nova profissão. Muito safo, foi conquistando a clientela, oferecendo até o serviço de delivery. Subia nos elevadores do Edifício da Avenida Central dezenas de vezes por dia. Gostava mesmo era de bater nos consultórios médicos, atendendo aos pedidos das atendentes.

Era o momento do sonho. Quantas vezes não imaginou o seu nome naquelas portas, enquanto equilibrava os saquinhos de pipoca.

Um dia, quem sabe?

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