Saudades


Ele morreu no dia 7 de Av. Viveu intensamente, faleceu ainda novo, para os padrões atuais. Filho de imigrantes, se apaixonou, desde garoto pelo futebol. Participava das partidas no meio da rua até a sua mãe ficar rouca de gritar para ele entrar em casa. Morava ali na rua Carmo Neto e já adotava um nome fácil, bem brasileiro, para ser chamado pela vizinhança.

Era o caçula e o preferido. A sua vontade era lei para aquela família humilde e ortodoxa, que era conhecida pelas suas portas abertas aos conhecidos, que aportavam no Cais do Rio, vindos de Shilovtzé, um shteitl polonês, onde o vento fazia a curva.

Ele estudou até ter que trabalhar para ajudar o seu pai no sustento da família. Mas, na verdade, nunca gostou da escola. A rua era muito mais divertida. Sua mãe, muito religiosa, rezava para que ele não virasse um sheigets (malandro, em idish).

Com o passar dos anos, foi tomando juízo e resolveu se casar com uma meia prima. Ele tinha vinte e um anos e ela vinte. Tiveram logo filhos, como era costume na época. Trabalhava por conta própria, junto com um cunhado, num escritório de joias, numa vila bem modesta na rua Doutor Ezequiel, perto da Central do Brasil. Ali, era o ponto de reunião dos clienteltchiks, que conseguiam o crédito necessário, para revender as suas mercadorias.

Era amigo de todo o mundo. Sempre bem humorado, conquistava as pessoas e era conquistado por elas. A sua casa tinha a porta aberta para quem quisesse se deliciar com os quitutes de sua esposa. Ela só brigava quando ele chegava com duas ou três visitas sem avisar. Ficava furiosa, pois sendo casher, não tinha tanta facilidade para improvisar na cozinha.

As crianças foram crescendo e ele escolheu uma escola judaico sionista para elas. Logo se empolgou e começou a fazer parte da diretoria do Hertzlia. Exercia o cargo de tesoureiro, que, naquela época, era o responsável por dar os descontos para os pais, na mensalidade da escola. Gabava-se de nunca ter deixado uma criança sem escola pela falta de recursos da família.

Ele era assim. Muito mais emoção do que razão. Todas as manhãs fazia a seleção dos longplays de música brasileira, e, enquanto tomava o café, ia cantando baixinho com Aracy de Almeida, Vicente Celestino, Dolores Duran, entre outros. Os discos em idish ficavam para o domingo de manhã.

Adorava teatro de revista. Virgínia Lane era a sua eleita. Essa sua veia artística foi canalizada para as festas de final de ano dos alunos do Hertzlia, que se realizava, com muito sucesso, no Teatro Recreio, e para a sua atuação como diretor social do Monte Sinai. Até show com Elis Regina ele promoveu nesse clube da Tijuca. Ainda bem, que ele tinha um sócio para trabalhar por ele, enquanto desenvolvia as suas atividades comunitárias.

A sua grande frustração era que o seu filho não gostava de futebol, nem era Vasco como ele. Aliás, invejava, também, um pouco, os pais que tinham filhos engenheiros, médicos e advogados. Para as filhas só idealizava um bom casamento, como todo bom machista.

Politicamente incorreto, para os dias atuais, sempre foi muito conservador nas suas posições políticas. Era anticomunista roxo. Apoiava o Likud, em Israel. Hoje seria um eleitor do Trump e do Netanyahu. Não ouso nem mencionar em quem ele votaria para presidente do Brasil.

Foi um avô tão participante, que disputava com as crianças a posse do controle remoto, numa época em que as casas só tinham uma televisão. Mas a saudade que ele deixou, para elas, foi a de um avô boa praça, que fazia da mesa de Shabat e dos Chaguim, em seu lar, o centro do mundo.

Hoje deve estar vibrando com a vitória da França. Deve ter convidado os amigos para tomarem uma cerveja preta e mastigarem uns tremoços, como ele fazia sempre na Adega Pérola, em Copacabana.

5 Comentários

  1. Samuel Kutwak
    Samuel Kutwak 17 de julho de 2018 at 15:38 |

    Gostaria de saber o nome da pessoa no artigo da Sarita pq meio pai errada mesma cidade

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  2. Alice
    Alice 17 de julho de 2018 at 16:13 |

    Sarita lindo , você escreveu com coração . Emocionante.

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  3. Isak
    Isak 17 de julho de 2018 at 18:19 |

    Quem é ele????

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  4. izidro nicolaievski
    izidro nicolaievski 17 de julho de 2018 at 19:18 |

    bela

    bela reportagem
    bela reportagem.kkkkkkkkkkkkkkkk

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  5. Henrique Kinrys
    Henrique Kinrys 20 de julho de 2018 at 16:08 |

    Sarita,
    Um artigo de muita sensibilidade.
    Vc deu tantas referências mas não divulgou o nome do personagem, talvez esperando que os leitores mais antigos o identificassem.
    Como ex-aluno do Hertzlia e frequentador assíduo do Monte Sinai na década de 60, gostaria que vc o identificasse por gentileza.

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