Resgate Artaudiano de um ato heróico

 

Por que falar de política? Continua pérfida, manipuladora, mesquinha, alheia aos anseios da população. Só creio em Educação como fator de mudança e por isso escrevo. Meu texto sobre Janusz Korczak foi convidado para estrear em dois teatros ao mesmo tempo, de quarta a domingo sendo o resultado final. No Midrash prorrogamos uma vez e agora voltaremos às quintas em outubro. No Centro Cultural de Justiça Federal estamos há quatro semanas e ainda mais duas, até 23/9, às 19 horas. Também participaremos, graças à peça, no Seminário de Direitos Humanos que o CCJF programou para 19, 20 e 21 de setembro, em sua sede. Agradecendo as elogiosas palavras de muitos amigos, aos abraços de pessoas emocionadas no ator e no diretor, transcrevo abaixo, com o consentimento do autor, o belo artigo que Wagner Correa de Araújo, que gerencia Escrituras Cênicas e é produtor cultural da Fundação Biblioteca Nacional, escreveu sobre ‘Meus Duzentos Filhos’.

RESGATE ARTAUDIANO DE UM ATO HEROICO

“Reformar o mundo quer dizer reformar a educação”. Este já era o lema do professor, médico e escritor polonês Janusz Korczak(1878-1942), antecipando os futuros avanços da chamada nova pedagogia, e que teve, entre seus ilustres seguidores, o suÍço Jean Piaget e o nosso Paulo Freire.

Durante quase três décadas administrou e viabilizou a prática de seu ideário a favor da infância desamparada no exemplar orfanato fundado em 1912 e que lhe foi arrestado pelos nazistas logo após a invasão da Polônia, obrigando-o a transferir suas duas centenas de crianças judias para as insalubres instalações do Gueto de Varsóvia.

Mesmo assim, ele se esforçou, no entremeio de uma luta insana, a defender seus pequenos mantendo acesa a chama da democracia micro cósmica, estabelecida e partilhada entre eles. Modelar em sua singularidade, mas especular a uma organização polÍtico/social adulta, com direito a um sistema parlamentar e jurídico, com seu próprio código comportamental altruísta e suas punições, estas sempre com intuitos catárticos.

Sua trajetória já inspirou dois renomados cineastas – o alemão Aleksander Korda e o polonês Andrzej Wajda – a partir do legado de suas obras, ora pelo confronto ao prevalente antissemitismo da época, ora pela exposição de suas teorias educacionais a favor da dignidade humana. E, agora, através de particularizada textualidade dramatúrgica de Miriam Halfim, em provocativo e reflexivo comando diretorial de Ary Coslov e surpreendente performance de Marcelo Aquino.

Com uma narrativa não necessariamente linear, o personagem vai rememorando momentos existenciais numa sequencial alusão ao seu passado, à sua breve experiência como oficial do exército pátrio, ao seu projeto pedagógico e ao seu códice geral de vida.

Expositivo em seus escritos, especialmente nos seus Diários, emotivamente contextualizados em teatralidade de enunciativas vocalizações e energizadas gestualizações (Ana Vitória), sob poética e pânica mascaração da dor e da violência.

Com um adequado recato cenográfico (Ary Coslov) à base das mutabilidades plásticas de uma cadeira e uma mesa, num palco emoldurado frontalmente com um telão que visualiza fotografias familiares e dos órfãos. Além de filmes documentários sobre as perversidades da solução final no projeto nazista. Conectando-se sempre à absoluta convergência focal ator>público para fluência maior da pulsão drama>catarse.

Sob estetizados tableaux sonoros (A.Coslov) habilmente privilegiando melancolizados acordes e cantares tradicionais judaicos, entre sensoriais marcações luminares (Paulo Cesar Medeiros), o ator protagonista Marcelo Aquino assume convicta veemência na exposição vocal/física de uma tragédia terminal anunciada.

Acentuadamente previsível na referência à representação patética de uma peça de Rabindranath Tagore, em torno da iminente inescapabilidade da morte de uma criança, e na paisagem mágica das nuvens, insinuada através das frestas do soturno vagão de carga animal que conduz o professor e seus “duzentos filhos” para o implacável destino crematório de Treblinka.

Numa tessitura ritualística artaudiana, fazendo entender sua transposição cênica pela orgânica simbolização de visceral intimismo psicológico, sintonizado em transe externo, com tal substrato verista em torno da crueldade humana que impacta o mais acomodado e desentorpece o mais alheio espectador.

Wagner Corrêa de Araújo

MUDAR O MUNDO SE FAZ ATRAVÉS DA MUDANÇA DO SER HUMANO. É O SER HUMANO EDUCADO QUE MELHORA OS GOVERNOS. CULTURA MUDA E APRIMORA. O RESTO É RESTO.

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