Remendos

Jeans Patch

Por diversas vezes, nas férias, em dias de chuva, costurávamos. Eram tardes úmidas e quentes, amenizadas por um ventilador de pé que até hoje resiste esquecido no fundo da sala. Esquecido, porém presente como se fosse ainda objeto vivo.

Da minha parte eram camisetas e batas a serem remendadas. Do pai, botões. Os jeans rotos na altura dos joelhos, do meu irmão. Já da parte da mãe, por diversas vezes, naquela pilha de roupas, eu não via nada, nada a ser remendado. Na mãe não havia nada a ser remendado, tudo seu era perfeito e infalível: uma das verdades que me mantinham então. Não raro, panos de prato, lençóis e fronhas, toalhas de mão, eram deixados para trás como itens irrelevantes ou de segunda ordem. Coisas que podem esperar na fila até o morrer do ano, quando tudo se refaz ou se repõe.

Eu era ajudante, como meu irmão: dobrávamos as peças e selecionávamos as linhas. Ele entendia de cores muito mais do que qualquer um de nós, talvez por seus cabelos ruivos, olhos azuis, pele branca, ou por suas sardas alaranjadas, olheiras arroxeadas, por ser ele próprio uma paleta de cores selecionadas pela acuidade dos olhos de um pintor. Meu irmão era pessoa colorida e eu desejava as suas sardas para que me preenchessem um par de bochechas vazias de euforia.

Enquanto os dedos da mãe retinham a agulha, a água da chuva tecia um pequeno trabalho sobre as vidraças. Nessa hora, enquanto a vitrola tocava “let it be”, a sua mão trazia para si a linha, na direção do ombro, nessa hora, quando seus olhos, bolas de novelos azuis, provocavam um efeito sobre o tecido, ali, nessa hora, enquanto cantássemos “don´t let me down” e os botões se encontrassem com suas respectivas casas, uma bandeira no topo de uma montanha era plantada. Ali éramos reis, fadas e gnomos. Naquela hora, “let it be”, enquanto os respingos da chuva fina penetrassem pela fresta da janela, enquanto por aquela fresta eu fechasse os olhos e me chegasse a chuva como sardas salpicadas , enquanto no vaivém da linha e na agulha da vitrola a mãe costurasse, don’t, don’t let me down, “don´t let me down”, nessa hora posso dizer que o universo se remendava. “Whisper words of wisdom, let it be.”

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