Quando a matemática deixou de ser o “bicho papão”

Ela amava o ballet e queria se tornar bailarina, mas acabou seguindo por um outro caminho: a matemática. Suely Druck  apaixonada pelos números desde muito cedo foi a criadora da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP, da qual foi Diretora Acadêmica de 2005 a 2012.

Em seu histórico, ainda coordenou o Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense e chegou a ser Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática por dois mandatos.

Doutora em matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com pós-doutorado pela Université de Paris Integrou o Conselho Técnico-Científico de Educação Básica da Capes, o Comitê de Planejamento em Educação Matemática (ICSU-LAC) e o Conselho Diretor da Sociedade Brasileira de Matemática.

Participou da Comissão do Exame Nacional de Matemática, e da avaliação de diversos cursos de licenciatura e bacharelado em Matemática nas IES’s. Agraciada com a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico pelo governo brasileiro.

Atualmente, Suely Druck é professora aposentada pela UFF, consultora na área do ensino da Matemática e escreve livros de Matemática para os níveis fundamental e médio.

Com um currículo intocável, não fica difícil entender como a professora mudou a vida de milhares de alunos indicando os caminhos que podem ser trilhados nas carreiras científicas, tecnológicas e biomédica.

.O que fez você trocar o ballet pela matemática?

-Tive a sorte de frequentar excelentes escolas públicas e por isso tive uma ótima formação estudantil. Assim conheci desde cedo a boa matemática. Por outro lado, desde muito pequena, adorava o ballet clássico.  Meu sonho era ser bailarina, no entanto tive uma lesão séria no joelho  causada por um tombo de bicicleta aos 11 anos, o que me impediu de dançar. Assim, interrompi o ballet, ao qual retornei muitos anos depois, e fiquei com a Matemática!

.A Matemática é uma disciplina muito temida. Ela é mesmo difícil ou é só um folclore?

-O problema com a matemática é universal. É uma disciplina  temida em todo o mundo. A matemática se distingue de outras disciplinas por três aspectos, que talvez a tornem mais difícil. Primeiro ela demanda atenção e concentração, o que não é muito fácil com crianças, é preciso aulas interessantes que desafiem a inteligência  e agucem  a curiosidade. Em segundo lugar, a matemática é sequencial, principalmente do 1º ao 9º ano (1ª a 8ª série), assim um assunto que não foi bem aprendido, cria dificuldades para o aprendizado de assuntos posteriores. Em terceiro lugar, a matemática é a única ciência que as crianças têm que compreender sua teoria desde a mais tenra infância: por exemplo, elas devem entender aos seis anos o sistema decimal, senão não vão aprender a contar, que é uma das primeiras atividades matemáticas que as crianças desenvolvem. Por esses três aspectos deve haver atenção especial ao ensiná-la.

.Você foi a criadora da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Como isso aconteceu?

– Até 2000, minhas atividades eram restritas à graduação e pós-graduação, quando fui eleita presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), que estava em um mau momento.  Cerca de 99% dos recursos e atividades da SBM eram dirigidos à pesquisa. Como presidente era convidada para abrir eventos pelo país, mas dizia que só aceitaria o convite se organizassem um encontro com 20 professores de escolas públicas para conversar comigo. Queria entender o que acontecia na rede pública, onde estudam 86% das crianças brasileiras. E vi que se tratava de um desastre. Não havia nada de interessante, nem para o aluno nem para o professor. Minha primeira iniciativa foi criar a Bienal da SBM. Metade da comunidade de matemática me apoiou e metade achou que eu estava contaminando a Sociedade com questões de ensino, que não era o foco. Em seguida, passei a dedicar-me à Olimpíada. Alguns acadêmicos sugeriram que fizéssemos somente no Sudeste e no Sul, mas eu disse que deveria ser no Brasil inteiro. Eu acreditava que ia dar certo porque todo mundo gosta do que é bom. Passei, então, a atuar no sentido de estimular crianças a partir da matemática, utilizando, inclusive, jogos e brincadeiras. Como ciência, a matemática é muito diferente das outras, porque não é experimental. É difícil ensinar matemática de maneira divertida. Tentamos aproximá-la da realidade, mas em algum momento é necessária a abstração. As crianças acreditavam que a matemática acabava na trigonometria.

O Brasil já tinha Olimpíada Brasileira de Matemática- OBM, desde 1978 e participava de olimpíadas internacionais. Essas olimpíadas atingiam um número muito restrito de alunos por uma ausência muito grande das escolas públicas.  Em geral, as escolas privadas eram que participavam. A OBM é que seleciona os alunos que vão representar o Brasil nessas olimpíadas internacionais que acontecem  em vários níveis. É uma seleção extremamente difícil e durante um período de 32 anos, nunca um aluno de escola pública municipal ou estadual havia sido escolhido. A partir de 2005, quebramos esse tabu. A Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas foi criada e realizada pela Sociedade Brasileira de Matemática ( onde eu era presidente) com apoio do IMPA e financiada pelo MEC e Ministério da Ciência e Tecnologia.

.Qual o objetivo maior dessa Olimpíada?

– O objetivo maior é melhorar o ensino da matemática nas escolas públicas, motivar e  encaminhar novos talentos para a área de ciência e tecnologia. Com cerca  de 85% das crianças brasileiras estudando em escolas públicas, o nosso objetivo foi mostrar a importância da matemática para o desenvolvimento do país.

. Você acredita que a matemática pode incentivar as crianças em suas escolhas profissionais?

-Sem dúvida. Muitos alunos das escolas públicas achavam que não poderiam ser engenheiros, médicos e seguir carreiras que requerem estudos mais profundos de matemática. Com a introdução da rede pública na Olimpíada, essa visão mudou.

.Qual é o perfil dos estudantes que participam das olimpíadas de matemática?

-São estudantes de 11 a 18 anos da 5a a 8a série, divididos em três níveis: nível 1 ,5ª e 6ª série ,  nível 2,  7ª e 8ª série,  e nível 3, Ensino Médio . Participam todos os setores de nossa sociedade, alunos das grandes e pequenas cidades, algumas  não tem sequer status de município, cidades com menos de 3 mil habitantes,  comunidades indígenas , comunidades quilombolas, estudantes deficientes físicos, estudantes que estão em programa de re-socialização e também internos penitenciários. Inclusive neste último grupo, já tivemos casos de medalhistas. Chegamos aos 20 milhões de inscrições e o Brasil é o país que realiza a maior olimpíada de matemática do mundo nesse modelo.

.Ao que você atribui tanto sucesso, sendo a matemática o bicho papão dos estudantes?

-Acredito que seja à ideia inicial de não abrir mão da excelência. Logo no inicio da realização dessa competição soubemos, que assim que acabavam as provas, as pessoas corriam para as redes sociais para discutir as questões. O material foi  muito bem elaborado com questões interessantes e soluções minuciosas redigidas para que os professores pudessem entender. Todo esse cuidado na elaboração das provas foi primordial para o sucesso das Olimpíadas.

.Como podemos descobrir o dom para a matemática?

– Acredito que quando o aluno tem bons professores, já é meio caminho para essa descoberta. Tive uma excelente educação pública. Estudei no colégio Aplicação, onde logo despertei o interesse por essa matéria. Infelizmente, hoje em dia, não temos um ensino no mesmo nível, por isso existe grande desinteresse dos alunos. Mas para a matemática, basta gostar.  Muitos alunos  nem sabem que gostam e de repente fazem essa descoberta através de soluções de problemas instigantes. Através da Olimpíada, isso pode acontecer e mesmo aqueles que têm dificuldade com matemática, a prática de estudar em grupo, que surgiu como resultado dessas competições, já é um grande ganho para o aluno.

.Como você descobriu o seu dom matemático?

– Quando tinha 9 anos gostava de brincar inventando problemas matemáticos. Mas nem minha irmã ou meus primos tinham interesse em resolvê-los.  Foi aí que peguei uma empregada da casa dos meus pais como vítima (risos).  Ela era analfabeta e aprendeu matemática antes mesmo de aprender  português. Inventava problemas terríveis para ela. Acho que os números têm uma certa magia e isso realmente me emociona.

 

 

Um comentário

  1. Zilda Kotzer
    Zilda Kotzer 25 de junho de 2019 at 17:34 |

    Ótimo artigo da Denise Wasserman! Oxalá e tivesse bom professor de Matemática, ou quem sabe tão má aluna nem isso ajudaria

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