…Pois tu és pó e ao pó hás de retornar…


(Bereshit,3:19)

Ainda me causa certo espanto o anúncio de cremação de um judeu, ato terminantemente proibido pela Torá. Mesmo tendo conhecimento de que já chega a quase 30% o percentual dessa opção de despedida da vida, por parte de judeus na Europa e nos Estados Unidos, ainda o fato me desperta incredulidade.

Mas o que me deixou perplexa, se ainda é admitida tal sensação nos tempos em que vivemos, foi o convite de uma família para o Shloshim de uma pessoa judia, que foi cremada. O evento, anunciado em jornal de grande circulação, foi realizado numa congregação judaica de nossa cidade. Não sei se teve alguma cerimônia religiosa, só acho que o simples uso da palavra Shloshim já se constitui numa heresia. Pois diante da decisão da cremação, pelo Código da Lei judaica, o morto não tem direito nem à Shivá, nem ao kadish, nem a qualquer outra homenagem de sua família ou da comunidade.

Tudo começou com o nosso patriarca Abraão, há pelo menos 3700 anos, que comprou um lote de terra, em Hebron, para enterrar a sua mulher Sara, marcando o início do cumprimento desse mandamento bíblico.

Baseados nos textos sagrados, os nossos sábios explicam que com a morte, a alma passa por uma dolorosa separação do corpo, que até então a tinha abrigado. Este processo de separação acontece conforme vai ocorrendo a decomposição do corpo. Quando o corpo é enterrado, desintegra-se lentamente, fornecendo, desta forma, um conforto à alma que vai se liberando, aos poucos, do corpo.

Esta decomposição é fundamental, e é por isso que a Lei Judaica proíbe embalsamar ou enterrar o corpo em um mausoléu, o que na verdade retardaria este processo fundamental de decomposição.

Além disso, os judeus são sepultados em um caixão de madeira, que se deteriora mais rapidamente. Da mesma forma, a nossa Lei decreta que o sepultamento seja feito o mais rápido possível depois da morte. Tudo isso é feito para o benefício da alma.

Uma das razões pela qual o Judaísmo proíbe a cremação é que a alma sofreria um grande choque, devido à súbita separação artificial do corpo.

Além disso, o último dos Treze Princípios da Fé Judaica, enunciado por Maimônides, é a crença na Ressurreição dos Mortos, que ocorrerá na época da vinda de Mashiach, sendo que então a alma retornará ao seu corpo de origem e será merecedora das grandes revelações do Olam Habá – o Mundo Vindouro. Na verdade, alguém que escolhe a cremação age como se não acreditasse na ressurreição, que é uma crença fundamental do Judaísmo.

Fisicamente, quando um corpo é cremado ele vira cinzas. Quando é enterrado, o corpo volta ao pó da terra e une-se novamente ao solo. O solo é fértil; as cinzas não. O solo permite o crescimento de algo novo, a continuação da vida. As cinzas não, são estéreis e sem vida.

Segundo Kornbluth (2012), transformar o corpo em cinzas é algo que vai contra a natureza, enquanto o processo gradual da volta do corpo ao solo está relacionado com a verdadeira natureza e com o profundo significado da morte. O Talmud compara o enterro com um tipo de plantação.

Por outro lado, a mensagem que passa a cremação é a do homem como conquistador, usando o fogo e a tecnologia para intervir e controlar a natureza – em vez de pacificamente aceitar o fato do final da vida. Assim, ao preferir a cremação, o homem tenta demonstrar o seu poder, mas com que finalidade?

A mensagem do enterro, ao contrário, é a de respeito pelo ciclo da vida. Quando enterramos os restos mortais de quem amamos, serenamente devolvemos o que recebemos. O enterro reflete o ritmo do universo.

A obrigação de enterrar no judaísmo é tão forte que até o Sumo Sacerdote, que tinha que evitar qualquer contato com os mortos, deve pessoalmente dar ao morto um enterro digno, se ninguém mais puder cumprir esse mandamento.

O judeu que é enterrado, segundo os rituais prescritos, afirma-se como sujeito da história judaica e membro do povo judeu. Em nosso último ato, escolher o enterro judaico, significa declarar “Eu talvez não tenha sido um judeu perfeito. Mas eu tenho orgulho dessa minha origem e eu quero morrer como um judeu.

Como diz o Talmud: “O enterro não é para o bem dos vivos, mas sim para os mortos” (Sanhedrin 47a).

Bibliografia:
Beutner, Abraham. Cremação. Beit Chabad.
KORNBLUTH, Doron. Cremation or burial: a Jewish view. Amazon, 2012.

2 Comentários

  1. Clara Rachel Gandelman
    Clara Rachel Gandelman 13 de março de 2018 at 19:11 |

    Sarita
    Minha alma judaica sente tudo o que você falou.
    Nossos sábios eram muito sábios.
    Quero acrescentar que ao lado de tudo o que você escreveu existe um fato que para mim é pungente. Quantos dos nossos foram queimados pelos romanos, pela Inquisição etc declamando o “Shemá.”?
    E o Holocausto?
    No mínimo, abomino a cremação em homenagens aos nossos irmãos de todas as épocas

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  2. Henriette Mariacy Krutman
    Henriette Mariacy Krutman 10 de abril de 2018 at 19:07 |

    Parabéns pela excelente análise, querida Sarita!

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