Pele em Flor

Tudo começou com uma visita que fiz a um apartamento.  A cozinha, mais precisamente a bancada com as pias, era muito próxima ao prédio vizinho. Muito próxima. Embora as janelas estivessem fechadas e eu não pudesse visualizar os apartamentos (ou até mesmo por isso), comecei a imaginar seus quartos ou salas. E, mais além, me pus a imaginar o que aconteceria se eu reconhecesse ali alguns dos meus pertences. Como seriam os sofás, as poltronas, os tapetes, que livros estariam expostos nas estantes, qual seria o estado das almofadas coloridas, talvez íntegras, talvez rotas.

Pronto! Aquele apartamento era uma fagulha. Desencadeou outros pensamentos, questões e situações que me puseram sentada diante do computador por um bom tempo.

Mas não foi só isso. Há muito venho refletindo sobre o tanto que a leitura e a escrita (ou a escrita e a leitura) me aprumam e me colocam de pé. E penso nas “diabrices e anjelices” que a arte é capaz. Só a arte é capaz. O que nos emociona. O que nos atinge. O que nos move.

Muito já se explorou sobre o tema arte, sei. Mas eu precisava sentir na pele. E o fiz através da pele de Líli.

Líli é uma história antiga. Começou a tomar forma no papel no período em que frequentei a oficina de escrita da Vera, há 4 ou 5 anos, talvez. Na ocasião, Líli era florista na Cobal de Botafogo. Vejam só. Líli vendia flores e lidava com as histórias incríveis dos seus clientes, que, por motivos diversos, a consultavam e a visitavam. Muitas ideias vieram. No entanto, essa Líli esvaneceu, não foi adiante.

Só mais tarde, ao visitar a tal cozinha enigmática, refiz os traços de Líli: por meio de uma caneta de tinta negra e de ponta muito fina, ela foi se desenhando. É agora uma pessoa de 16 anos de idade, cuja memória é resgatada através do seu diário. Ali estão seus desenhos. Sua produção artística. Sua história. Pessoas que a cercam. Objetos da sua vida. Os motivos que a fizeram escrever e mais tarde descartar o seu diário.

Ali, na sua produção, ela, Líli, fora nutrida e posta de pé.

Um dia, qualquer dia desses, contarei sobre Vera e Júnior (personagens da Pele).  E sobre mais detalhes dos bastidores. Penso que tudo pertence ao livro: o texto e o que está por trás do texto. O surgimento do título. Fatos curiosos que acontecem durante o processo de elaboração.  Uma história só, assim como um olhar mais abrangente, como alguém que fotografa um fotógrafo fotografando.

Enfim, agora sim, segue a resenha de Pele em Flor:

Líli é uma jovem de 16 anos de idade. Em certa ocasião, diante da janela da cozinha do apartamento onde vive, avista na sala vizinha um objeto que um dia lhe pertenceu. Neste instante, sua memória a leva de volta à infância, através dos mínimos detalhes de toda uma produção artística e lúdica.

A partir de um certo momento, Líli cria coragem e sai em busca do paradeiro do seu objeto no apartamento vizinho, quando ergue-se a sua história passada e compõe-se o quebra-cabeças, no ir e vir da memória.  E se a realidade não passasse de uma pincelada?

“Pele em Flor” trata da visita ao passado, da produção artística que nos preserva e nutre, do imaginário a ser desvendado. Trata-se de um genuíno convite a uma galeria de artes, onde os quadros expostos retratam os arranjos da própria vida, através de objetos e personagens.

O texto é narrado por Líli nos anos da sua adolescência madura, na forma de diário.  À base de traços marcantes e firmes, densos e leves, a autora trata da narrativa também com arte, essa de buscar palavras que caibam precisas, praticamente um desenho ou uma pintura ou uma música, chegando a ser quase poesia.

Paro por aqui. A partir deste ponto, não digo mais nada.

Boa leitura!

 

 

Um comentário

  1. Sandra Helena Bondarovsky
    Sandra Helena Bondarovsky 25 de outubro de 2018 at 15:49 |

    Fania querida,
    Gostei muito do seu texto.
    Dá vontade de ler o livro todo.
    O site também é instigante.
    Por sorte teremos mais tempo para comentar.
    Sucesso!

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