O Talit

Que semana! Entre tudo que vi e ouvi, não consigo me esquecer de uma cena bizarra, para não dizer dantesca, que atravessou o meu espaço cibernético, vinda diretamente de uma praça londrina. Não tinha nada a ver com o casamento real.

Tratava-se de um grupo de judeus, recitando o “Kadish”, pela morte dos membros do Hamas, que insistiram em invadir o Território Israelense, a partir da Faixa de Gaza. Já nem discuto o inusitado da manifestação. Sempre vai ter quem bata palmas para maluco dançar. Ainda mais nesses tempos, em que não há mais divisão entre palco e plateia. Em que o instantâneo toma o lugar do duradouro, do eterno.

A minha indignação com o episódio tem mais a ver com o uso do Talit, por uma manifestante rabina ou uma rabina manifestante, como preferirem. Será que fez parte do seu estudo a noção da santidade desse xale sagrado? Como admitir o seu uso numa situação tão macabra? Era só fantasia?

Aliás, já há algum tempo, tenho reparado o abuso na utilização do Talit em ocasiões, que em nada lembram o cumprimento de um mandamento divino, conforme encontramos na reza do “Shemá”, que recitamos pela manhã e após o anoitecer.

“Disse A-do-nai a Moshé o seguinte: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes que façam para si franjas nos cantos de suas vestimentas, por todas suas gerações. Prenderão na franja de cada borda um cordão azul-celeste… Para que vos lembreis e cumprais todos Meus mandamentos…”

E foi assim percebido por quem assistiu ao filme 1945, que se passa numa cidade perdida da Hungria. Ali, a sua população judia foi roubada e dizimada pelas mãos nazistas e a população local. Ali, um pai e um filho, sobreviventes do Holocausto, voltam para enterrarem “o que sobrou” daqueles judeus húngaros, que foram deportados para os campos de concentração. Aquela “sobra”, composta só por objetos preciosos para a vivência religiosa dos que viraram cinzas, foi envolta, com toda Kavaná, em Talitim, para serem enterrados no cemitério judaico.

A dimensão da importância do Talit, para o judaísmo, pode ser constatada, na medida em que essa vestimenta, que foi usada nos momentos de oração, durante a sua vida, envolve o corpo judeu no seu sepultamento. É, assim, o único bem material que o acompanha na morte.

Daí, todo o meu repúdio pelo uso indevido do Talit, que tem, também, como uma de suas funções dar a proteção divina aos pais, filhos e netos, durante a benção dos Cohanim, no espaço da sinagoga.
Um manto símbolo para a vida e para a morte judaica, que vai muito além da simples escolha dos modelos e das cores, a serem usados na cerimônia do Bat ou Barmitzvá.

2 Comentários

  1. Sylvia Mekler
    Sylvia Mekler 22 de maio de 2018 at 15:28 |

    achei muito instrutiva a explicação sobre o uso do Tallit muito apropriado,

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  2. Peter Abraham Liquornik
    Peter Abraham Liquornik 22 de maio de 2018 at 22:12 |

    Como sempre , um texto maravilhoso, contendo uma crítica construtiva, a não banalização do sagrado e o seu respeito por outrem, mesmo que tenha opiniões diferentes
    Parabéns !

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