O primeiro apartamento

Enquanto o porteiro não sobe com a chave, Rosa espia o apartamento através do buraco da fechadura. A visão é parcial. Vê-se uma sala e uma varanda. Rosa aproxima-se da porta trancada. Abaixa-se, pondo as mãos sobre as coxas. Vê o piso em tábua corrida clara. Rosa pressiona o rosto contra a porta de entrada. Agachada, olho direito na fechadura, percebe a claridade que penetra na sala. Rosa fecha o olho esquerdo, para dar vez ao outro, conseguindo visão aperfeiçoada, visão quase precisa, como se entrasse, toda ela, por aquela pequena abertura.

Pelas manhãs, cedo, regará as azaleias na varanda. Enquanto nutre a planta com água em abundância, observará as folhas verdes e pensará em como é bom ter a natureza por perto. Da terra molhada, sentirá o perfume da chuva, embora o sol penetre na varanda todos os dias. A planta renderá florada. Serão flores cor-de-rosa, cada pétala em tons sobrepostos, rosa choque, rosa claro, rosa bebê, e, finalmente, no fundo da flor, ali residirá o branco, presente em cada uma das inúmeras flores que enfeitarão a morada de Rosa.

Rosa receberá amigos nas noites das quintas-feiras. Sentarão no sofá antes do jantar. Conversarão sobre o trabalho. Falarão do trânsito. Lembrarão das coisas, agora passadas. Beberão. Haverá música no fundo das vozes. Não haverá silêncios na sala de Rosa. Alguém irá à varanda e verá a lua no céu. Em volta da lua haverá claridade. Uma claridade branca,leitosa, feito o miolo da flor da azaleia, que ali sempre estará.

A cozinha abrigará as pequenas refeições, além da leitura do jornal. Rosa preparará mate e tomará gole a gole, surpreendendo-se com as notícias do mundo. Enquanto isso, escutará a brincadeira das crianças no play. Serão risadas e cantorias. E pensará que por um lado estão as más notícias, perversas, disputando com o outro lado, as pequenas alegrias, as inocências de todos nós.

Ao esticar a colcha e arrumar as almofadas no quarto, Rosa revisará as tarefas do dia e arrumará a bolsa, abrirá as janelas para arejar o cômodo, que se inundará de generoso frescor vindo da mata, ali atrás, dando as costas, com bom cheiro e tons de verdes. Nessa hora, almejará ficar ali para sempre, desejando tudo igual, do mesmo bom jeito.

Rosa, agachada, o olho colado na fechadura por 5 minutos, já lhe doem as costas. É quando o porteiro chega. Raimundo traz a chave com desculpas no olhar. Rosa, o corpo do lado de fora e o futuro do lado de dentro do apartamento, ergue-se.

Não precisa da chave não, Seu Raimundo. É esse. Vou ficar com ele. Está visto.

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