O histórico de relações entre os jogadores croatas e o nazismo

Com a Croácia chegando à sua primeira final de uma Copa do Mundo, circulou nas redes sociais, dúvidas de internautas sobre torcer ou não torcer para o time croata, que ao longo da competição conquistou a simpatia do público com um futebol criativo e de muita garra.

Com a crescente onda do antissemitismo na Europa, os vários atentados contra os judeus na França, dividiu a opinião de quem iria torcer para uma das duas seleções,  apesar de algumas pessoas acharem que futebol não se mistura com qualquer outro tema.

A dúvida em relação à Croácia surgiu com a divulgação de um vídeo onde o zagueiro Domagaj Vida, autor de gol na classificação contra a Rússia pelas quartas, apareceu ao lado do observador técnico Ognjen Vukojevic fazendo uma saudação utilizada por milícias neofascistas na Ucrânia.

Em outro vídeo publicado anteriormente pelo defensor Dejan Lovren, vários jogadores da equipe cantavam a música “Bojna Cavoglave”, uma canção nacionalista e xenófoba, que faz apologia à ajuda da Croácia aos nazifascistas na Segunda Guerra. A música é da banda “Thompson”, que tem diversas letras entoadas nos estádios croatas durantes os jogos da seleção.

O futebol croata já foi marcado por episódios de cunho fascista e até nazista. Em 2013, a saudação Ustase (partido nazista durante a Segunda Guerra) foi feita pelo jogador Josip Simunic quando a Croácia se classificou para a Copa do Mundo de 2014. Ele foi punido e não pode participar do mundial no Brasil.

Em 2015, a Croácia sofreu sanções por uma suástica marcada no gramado do estádio onde havia sido disputada uma partida contra a Itália.

Durante a Segunda Guerra, quando as tropas de Hitler atacaram a Iugoslávia em abril de 1941, as forças armadas alemãs (Wehrmacht) tiveram apoio de grupos iugoslavos. O Partido Ustasha, de extrema-direita, nacionalista e fascista, apoiou com suas milícias o avanço das tropas nazistas, pois queriam a independência da Croácia frente à Iugoslávia. Quatro dias depois do início dos ataques, Hitler declarou que havia sido criado o Estado Independente da Croácia. As tropas nazistas eram recebidas com festa na capital Zagreb.

A católica Croácia conseguia realizar o sonho de se separar da ortodoxa Sérvia. Durante os quatros anos como um Estado independente (1941-1945), com um governo fascista e com grande base religiosa, buscou fazer uma purificação racial e executou, com sua milícia, mais de 750 mil pessoas, entre sérvios, judeus, ciganos e antifascistas.

As músicas da banda “Thompson” cantadas a plenos pulmões pelos jogadores croatas falam sobre o genocídio dos servos, e exaltam os anos sombrios do antigo Estado croata. Não é possível que os jogadores da seleção não conheçam a origem destas músicas e das saudações que cantam e fazem.

Zagueiro croata proibido de jogar em 2014

Em 2013, o então capitão da seleção Simunic, após a partida que classificou a seleção para a Copa do Mundo do Brasil, cantou junto com torcedores diversos cânticos nazistas e de exaltação a Ustasha, além de fazer saudações fascistas e em homenagem a Hitler. Simunic, que é considerado um ídolo em seu país, recebeu uma sanção de 10 jogos, ficando proibido de jogar a Copa de 2014.

O fascismo entre os jogadores da seleção não é algo que é repudiado pela mídia, governo ou por entidades. No país, com um governo conservador, o passado nazifascista é visto como parte da formação do atual Estado Croata, não existindo um sentimento público de repulsa.

Desde a guerra pela independência do país (1991-1995), um crescente nacionalismo e aceitação de ideias de extrema-direita podem ser vistos. Ano passado o governo croata retirou estátuas do líder comunista iugoslavo Tito de diversas cidades, mudando nomes de ruas e praças que o homenageavam. O governo permitiu também que os veteranos da unidade paramilitar, HOS, que combateu na guerra de independência, colocassem, em homenagem aos soldados mortos, uma placa com um lema fascista a algumas centenas de metros de um antigo campo de concentração, onde foram assassinados sérvios e judeus na Segunda Guerra.

Kolinda Grabar-Kitarovic (Centro, de vermelho), presidente da Croácia, segurando a bandeira usada pelos nazistas croatas durante a 2ª Guerra em evento recente.

A frase em questão, “Za dom spremni” (assuntos para a Pátria), era a saudação oficial das tropas de Ustasha e do antigo Estado croata pró-fascista na Segunda Guerra. É importante colocar que as tropas da unidade HOS utilizam a frase fascista em seus símbolos. Desde que se separou da Iugoslávia em 1991, foram destruídos cerca de 3.000 monumentos que homenageavam os movimentos anti-fascistas.

Ustasha e o terror fascista na Croácia durante a Segunda Guerra

O Ustasha (também conhecido como Ustase) foi um partido nacionalista de extrema-direita que assumiu o poder do Estado Independente da Croácia em abril de 1941 durante a Segunda Guerra Mundial. A Croácia foi um Estado fantoche criado pelos nazistas após invadirem a Iugoslávia. O Ustase esteve à frente da Croácia até 1945 e, nesse período, espalhou o terror pelo país matando indiscriminadamente sérvios, judeus e ciganos.

Em protesto pelo que consideram uma tolerância oficial do revisionismo neo-ustasha, as associações de judeus, sérvios e antifascistas boicotam desde 2016 a comemoração oficial no ex-campo de concentração de Jasenovac.

Para o famoso diretor de cinema, Rajko Grlic, “este fedor do passado putrefato é o que leva hoje muitos jovens ao êxodo em massa deste país”.

Só em 2017, as autoridades de Zagreb eliminaram o nome de Tito da principal praça da cidade, depois que várias outras decidiram mudar de nome as ruas que lembravam o falecido líder iugoslavo.

“Os neo-ustashas tiraram a placa com o nome de Tito da praça mais bonita de Zagreb, que foi o principal símbolo antifascista da cidade”, lamentou Grlic .

O autor de vários filmes antinacionalistas, com prêmios internacionais, lembra nesse sentido que os ustashas “foram mais cruéis e sangrentos que seus mestres do Terceiro Reich”. A própria presidente croata, Kolinda Grabar-Kitarov, causou certo mal-estar público ao dizer que “Za dom spremni” é apenas “uma antiga saudação croata, lamentavelmente comprometida pelos ustashas”.

Inclusive especialistas de tendência direitista e ultranacionalista concordaram em que se trata de uma saudação idealizada e inventada pelos próprios ustashas.

Diante da dificuldade que parecem ter muitos políticos croatas, sobretudo os de centro direita, no Governo e na presidência atualmente, com o legado ustasha, crescem as vozes que pedem uma proibição dos seus símbolos.

“Não vejo outra solução legal a não ser a que a Itália está adotando, ou seja, a de proibir todos os símbolos nazi-fascistas, incluindo os ustashas”, disse Zarko Puhovski, professor de História na Faculdade de Filosofia de Zagreb.

Mas no seu lugar, o Governo croata formou uma “Comissão para o enfrentamento do passado”, que proporá medidas a respeito dos símbolos “de todos os regimes totalitários”.

Isso faz uma aparente referência não apenas aos ustashas, mas também aos partisanos e comunistas. Para muitos analistas croatas, trata-se apenas de uma nova tentativa de “mitigar” ou “limpar” o caráter criminoso do regime ustasha, equiparando suas ações com as dos partisanos e comunistas.

Na semifinal entre Croácia e Inglaterra, nem tudo estava perdido. Jogadores da seleção inglesa, como Lingard e Dele Ali, comemoram seus gols com a coreografia do clipe “This is America”, música que denuncia o racismo e a violência policial nos Estados Unidos.

A conivência da federação croata com o fascismo de seus atletas merece ser repudiado. Isso só mostra que, em tempos de crescente xenofobia, ideias nacionalistas e de extrema-direita, é mais do que preciso e importante discutirmos o passado, para melhor combater essas ideias no presente.

2 Comentários

  1. Jacob B. Goldemberg
    Jacob B. Goldemberg 17 de julho de 2018 at 19:53 |

    Tão falado franceses de raízes africanas … mas estava faltando croatas de raízes croatas. Por que? Em nome da paz? Ora pois…
    Parabéns Denise, belo texto. Importante.

    Responda este comentário
  2. ruth gotlib pilderwasser
    ruth gotlib pilderwasser 17 de julho de 2018 at 21:51 |

    muito importante divulgar coisas do passado , mesmo em torno do futebol .
    Lindo gol Denise !!!!!!!!!!!!!!!!

    Responda este comentário

Comente