Nem a Natalie Portman escapou…

Vocês sabem porque foi destruído o segundo Beit Hamigdash, e o exílio do nosso povo durou mais de dois mil anos?
Segundo os nossos sábios, por que os judeus daquela época, apesar de estudarem Torá, seguirem as suas leis e praticarem até atos de bondade e caridade, se odiavam, difamavam uns aos outros, nutriam ressentimentos e se alegravam com a desgraça alheia.

Algum paralelo com a realidade de uma comunidade de que fazemos parte, em que os pavios estão cada vez mais curtos?

Uma palavra mal colocada, uma foto, um artigo, uma opinião dissonante, uma nota oficial dos órgãos representativos, tudo vira motivo para imprecações, ofensas, calúnias e patrulhamentos. Nem a Natalie Portman escapou.

Um candidato à presidência do Brasil, que percorreu todo o país bradando sandices, teve sua única ida a um clube judaico do Rio, citada pela Procuradora Geral da República. A quem interessa essa exposição?

Parafraseando o ministro Barroso falando do seu colega Gilmar Mendes, fico me perguntando como é possível acumular tanto ódio para ser destilado nas redes sociais. Será que no face a face, em casa ou no trabalho, essas pessoas assumem as mesmas posturas? Haja terapia para dar conta de tanto desamor.

E o que mais me impressiona é que só tem dono da verdade. Seja da direita ou da esquerda. Os estereótipos e os preconceitos ficam a flor da pele, levando as pessoas a opinarem sobre tudo e todos, baseadas em meros “achismos”.

Como diria o prefeito de Sucupira, a “critiquice” está no ar.

O uso e abuso do termo Kapo, para designar o alvo da maledicência do dia, dá bem a dimensão da virulência dos textos compartilhados.

Não importa a latitude que, naquele momento, estejam ocupando. Se o assunto é regional, nacional ou internacional.

Todos se sentem autorizados a dar os seus pitacos, que duram mais do que as fitas bananas do Artur Xexéo. Tem aqueles outros, que são capazes de citar autores mais ou menos conhecidos, de forma primária e descontextualizada, com o único objetivo de terem as suas geniais ideias, referendadas por intelectuais.

A convivência judaica, através dos tempos, sempre foi rica e plural. O dito folclórico “dois judeus, três sinagogas”, revela bem a nossa diversidade de pontos de vista, em relação aos temas racionais e espirituais. A nossa cultura foi se construindo a partir do debate de ideias e das diferentes interpretações dos textos, metodologia que, até hoje, é adotada em nossas ieshivot e nas principais academias de ciências do mundo.

Está na base de nossa ética o respeito ao outro, a humildade, a liberdade de expressão, o interesse coletivo sobre o individual. Um judeu pode se filiar a uma ou outra corrente, pode desaprovar alguns costumes, optar por uma visão política ou eleger um grau de observância religiosa – mas, segundo os nossos comentaristas, ninguém pode negar que todos fazemos parte do mesmo povo e que, apesar das discordâncias, são “meu osso e minha carne” (Gênese 29:14).

Assim, proponho focarmos mais nas ações construtivas, em termos comunitários, e há tanto a fazer. Vamos perder menos tempo nesses diálogos inócuos que só nos dividem e vamos nos afastar, por um tempo, dos refletores, para diminuir a possibilidade de sairmos chamuscados.

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