Museu lituano retrata genocídio, mas minimiza o Holocausto

 

Durante o Holocausto, muitos judeus lituanos não foram mortos nos campos de extermínio nazistas, mas sim pelos vizinhos, geralmente a tiros ou golpes físicos. No total, aproximadamente 225 mil pereceram, dizimando assim 90 por cento de uma comunidade que fora parte da vida local durante cinco séculos.

Por isso não deixa de ser surpreendente que em Vilnius, a capital do país, haja um centro comunitário judaico de bastante movimento (inclusive com um café que serve bagels), um Museu Judaico novo, expandido, e uma sinagoga totalmente funcional. Eles se beneficiaram da ação de um governo mais voltado para o Ocidente, para encorajar os litvaks a voltar e já propôs declarar 2019 como “O Ano do Judeu”.

No bairro periférico de Ponary, há um memorial que, com o tempo, acabou incluindo os 70 mil judeus que, obrigados a se despir, foram mortos a tiros na floresta próxima. E, na cidade, há um Museu das Vítimas do Genocídio.

Até pouco tempo, a instituição – que funciona na antiga sede da SS nazista e, depois, da KGB, a famosa polícia secreta e aparato de espionagem soviéticos – nem chegava a mencionar o Holocausto, no qual os alemães usaram os partidários e a polícia para arregimentar e matar os judeus do país.

E eles foram dizimados em maior número em Vilnius, em números absolutos e em porcentagem, do que os que viviam na Alemanha, país muito mais populoso.

O genocídio a que se refere o nome do museu foi aquele cometido pelos soviéticos após sua ocupação do país, devido à derrota dos nazistas, em 1945. Entretanto, embora o governo soviético tenha sido brutal, poucos historiadores o classificariam como genocida.

Cerca de vinte mil lituanos foram mortos nos expurgos stalinistas e nos campos siberianos, para onde 250 mil desses cidadãos foram deportados. Nunca houve uma iniciativa para dizimar a população do país.

‘Negação do Holocausto’
Em 2011, após críticas da comunidade internacional, o museu acrescentou uma sala pequena no porão, onde antes ficava a cela de interrogatório da KGB, dedicada ao genocídio dos judeus – e manteve a mesma descrição para o que a Rússia fez nos outros três andares, em um prédio que ocupa praticamente todo o quarteirão.

Dovid Katz, acadêmico iídiche e historiador judeu-americano de ascendência lituana, descreveu o museu como “a versão século XXI da negação do Holocausto”. Residente em Vilnius, ele edita o site Defending History, dedicado a questionar o que vê como uma abordagem revisionista da Lituânia em relação ao assassinato em massa.

“Definir o que os soviéticos fizeram como genocídio é usar de subterfúgios ambíguos para transformar as vítimas em criminosos e todos os assassinos em heróis.”

Já Ronaldas Racinskas, diretor executivo da Comissão Internacional para a Avaliação dos Regimes Nazista e Soviético de Ocupação na Lituânia, acha que é preciso evitar uma “Olimpíada de sofrimento”, tentando comparar quem sofreu mais que quem, ou qual ocupação foi melhor ou pior.

Muita coisa em Vilnius, que já foi conhecida mundialmente como centro de cultura e estudos acadêmicos judaicos, deixa os judeus locais pouco à vontade: as ruas têm nomes de pessoas como Kazys Skirpa, que defendeu a ideia de o país se livrar dos judeus antes mesmo do início do Holocausto, e após datas como 23 de junho, dia da invasão alemã, quando o extermínio lituano teve início.

Os degraus da escadaria de um dos templos mais proeminentes da capital, a Igreja Evangélica Reformada, relacionado ecumenicamente à denominação presbiteriana norte-americana, são feitos de lápides de cemitérios judeus, inclusive com algumas inscrições hebraicas bem visíveis.

Nerijus Krikscikas, porta-voz do santuário, culpa as autoridades soviéticas pelo fato, pois a confiscaram e reconstruíram. E revela que a intenção era eventualmente remover as lajes, mas que a ação nunca pôde ter sido levada a termo porque o local é considerado histórico.

“A imensa destruição do patrimônio cultural é uma indicação clara do antissemitismo e o antiprotestantismo do regime soviético”, conclui.

Em uma escala maior, o gigantesco Palácio de Concertos e Esportes, erguido pelos soviéticos, onde os astros do basquete local jogam, foi construído sobre um antigo cemitério judaico.

E o governo quer expandi-lo, em vez de demoli-lo de vez.

A pequena comunidade judaica, que reúne entre três e quatro mil pessoas em termos nacionais, está profundamente dividida em relação a essas questões. Renaldas Vaisbrodas, diretor executivo da associação da Comunidade Judaica Lituana, espera que as lápides sejam devolvidas, como parte do processo que ocorre em toda a cidade com tais artefatos.

“Esse recurso era comum na era soviética, quando os epitáfios eram usados em todo tipo de projeto de construção. Devemos também reconhecer a iniciativa maravilhosa das autoridades locais de substituir as peças e reuni-las em um local adequado, de modo que sejam devolvidas aos poucos.”

Simonas Gurevicius, diretor da Comunidade Judaica de Vilnius, grupo local que se separou da associação nacional, disse que o cemitério tem uma importância enorme, ainda que todas as lápides tenham sido usadas como material de construção, pois tudo o que restou permanece praticamente intacto.

“Os soviéticos não construíram o ginásio aqui por coincidência, mas sim como parte de uma campanha antissemita de destruição dos locais significativos para a comunidade judaica. Esse despotismo é parte do patrimônio que queremos preservar?”.

‘Genocídio duplo’
Esse debate difícil é parte de outro, mais amplo, ainda atual, pois as nações do Leste Europeu continuam a fazer frente ao legado do Holocausto.

Katz, como muitos outros acadêmicos, descreve a abordagem lituana de sua história como “genocídio duplo” – isto é, como um esforço de equiparar as ocupações soviéticas no Leste Europeu com o Holocausto, colocando os feriados nacionais para marcar as tragédias nazista e soviética no mesmo dia.

Muito antes de a Polônia gerar polêmica este ano com uma lei que criminaliza qualquer acusação aos poloneses pela cumplicidade no Holocausto, a Lituânia já tinha uma legislação bem abrangente na mesma linha – e desde 2010 considera crime “a negação ou banalização grosseira” dos genocídios soviético e nazista ou de crimes contra a humanidade.

Efraim Zuroff, principal caçador de nazistas do Centro Simon Wiesenthal, afirma que a instituição tem os nomes de vinte mil lituanos que participaram do Holocausto, mas apenas três foram processados e condenados – e deles, nenhum cumpriu pena. “É uma piada”, comenta, irônico.

“Até bem pouco tempo atrás, era realmente a Lituânia que puxava o coro das distorções sobre o Holocausto no Leste Europeu, na base da filosofia ‘se todo mundo é culpado, ninguém é'”, afirma.

Katz considera a comissão lituana uma das fundadoras do conceito de genocídio duplo.

“É uma tentativa maciça de reescrever a história. ‘Genocídio duplo’ dá uma ideia tão universal e não controversa que as pessoas não percebem que estão aceitando uma revisão de extrema-direita da história, que transforma assassinos em heróis. Praticamente todos os assassinos da Europa Oriental eram contra a União Soviética.”

Segundo Racinskas, a comissão tem um subcomitê separado para lidar com o Holocausto, que inclui representantes judeus internacionais como membros do Yad Vashem, centro memorial oficial do Holocausto em Israel.

Em março, o Parlamento lituano reagiu à polêmica da instituição sugerindo um projeto de lei que mudaria seu nome para “Museu da Ocupação”, e que ainda não foi votado.

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