Mulheres


Ela que acorda antes do sol, vai tateando o minúsculo espaço do seu barraco, para deixar prontas as marmitas do companheiro e dos filhos. Ela trabalhadora, que adormece no caminho do emprego, que sonha mudar de vida como a sua patroa, que está cansada das baladas, que busca afinal um ombro amigo, que lhe dê proteção.

Ela que tem que andar de salto alto, roupas em tom pastel, demonstrando firmeza em suas decisões frente aos seus comandados, que, ao contrário de seus filhos, cumprem as suas ordens. Sente saudade da época em que podia ficar em casa, lendo histórias para as crianças, usando bermuda e camiseta o dia todo. Não se sentia feliz assim, também.

Quem sabe, para essa mulher, a felicidade já foi cor de rosa, vestida de babados, rendas e fitas de cetim. No seu mundo de adolescente, a chegada de um príncipe encantado aconteceu, em sua plenitude, como os roteiros dos filmes de Hollywood. Só que depois de algum tempo, o príncipe virou sapo e bateu em retirada para outra lagoa, deixando ela com três sapinhos para cuidar.

Ela, que paga o preço da fama de ser desejada, como as mulheres da folhinha da Pirelli das borracharias, usa todas as artimanhas para que os anos não passem ou passem despercebidos para os seus admiradores.

Ela, que se diz independente, autossuficiente, vai levando a sua vida como se não houvesse amanhã. Vive sempre sozinha, afogada pelos projetos de vida, que não incluem o verbo compartilhar.
Ela, mulher altruísta, que se engaja, que se compromete com um mundo melhor e mais justo, apoiando as causas, que considera politicamente corretas. Ela que, ao contrário, levanta bandeiras, vai nas assembleias, dá o seu recado, mas na hora do vamos ver, vai tomar um chopp num pé sujo qualquer.

Ela, que não se esquece do batom, na hora da chegada do marido, que pede para as crianças não aborrecerem o papai, que se sente realizada como a rainha do lar.

Ela, que adora revistas de celebridades, que já está contando os dias para assistir o casamento do príncipe Harry. Daria a vida para ser uma das convidadas plebeias no Castelo de Windsor.

Ela, que só é feliz nos seus posts no Facebook e no Instagram, que faz do uso do celular a sua arma contra a solidão, que consegue encarar a esquizofrenia entre o mundo vivido e o idealizado.

Ela que adora viajar, que curte tudo de bom que a vida lhe dá. Que sabe fazer de um limão uma limonada, que é sempre a boa companheira.

Ela, que sofre com a guerra, que não sabe se fica ou se foge. Que já não chora, pois a sua alma já ressecou.

Ela… Ela… Ela… São todas mulheres em todos os dias do ano.

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