Modelos

A primeira coisa que me vem à memória são os momentos na cama com minha irmã e meu avô, ouvindo histórias e mais histórias bíblicas. Depois, dormíamos na sala de jantar, em duas poltronas que à noite viravam camas de solteiro. Vovô desligava a televisão e apagava as luzes logo após o Repórter Esso, de forma que só nos restava, a mim e a minha irmã, adormecer ou pensar. Pensar era um grande e gostoso exercício.

Ainda na primeira infância, a lembrança de minha avó, após todo o trabalho da casa e da rua (ela vendia de porta em casa), banho tomado e louça do jantar lavada, colocando a cadeira na calçada para a conversa com as vizinhas enquanto a criançada podia brincar na rua calma, por onde poucos carros circulavam. Pular fogueira, passar anel, pique-esconde.

Consegui uma vaga gratuita numa colônia de férias da comunidade judaica (acho que aos seis anos) e me lembro de muito barro vermelho no caminho, um prédio simples, um dormitório coletivo e um refeitório enorme. Algo errado eu devo ter feito, pois tenho na memória um canto onde fiquei de pé durante toda a refeição e depois no chão, engraxando muitos sapatos. Muitos, mesmo. Não lembro mais o que fiz para merecer o castigo, mas jamais esqueci a lição.

Ainda no primário, mas já vivendo na Penha, o colégio público e a festa do dia das mães me vêm à mente. Todo ano havia festa, a do dia das mães muito festejada. Minha mãe invariavelmente chorava ao me ouvir cantar ‘Ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar, ela vale mais para mim que o céu que a terra e que o mar; ela é a palavra mais linda que um dia um poeta escreveu, ela é o tesouro que um pobre das mãos do Senhor recebeu; mamãe, mamãe, mamãe, tu é s a razão dos meus dias, tu és feita de amor e esperança, ai, ai, ai, mamãe, eu cresci o colinho perdi, volto a ti eu me sinto criança; mamãe, mamãe, mamãe, eu me lembro o chinelo a mão, o avental todo sujo de ovo, se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo, de novo …’ Nunca esqueci a música, a festa, mas cresci e as coisas mudaram.

Mudamos para Santa Cruz e lá, onde apenas viviam duas famílias judias (a minha era uma delas) a escola pública também era de boa qualidade e festeira. Eu amava as festas juninas, mas tinha uma tristeza: jamais usei um daqueles vestidos coloridos e cheios de babados que minhas coleguinhas ganhavam. Se queria dançar a quadrilha, devia ser vestida de menino, pois caça jeans todo mundo tinha. Um remendo se conseguia de graça, a camisa quadriculada devia ser uma que pudesse ser aproveitada depois e o chapéu era baratinho e seria usado o ano todo para proteger do sol. Santa Cruz era quente de verdade. Não havia nenhum dinheiro sobrando, então a imaginação precisava funcionar a todo vapor.

Quando fomos para o Rio Comprido, eu estava no ginásio. Havia um orfanato no caminho para a escola pública (era o maravilhoso Paulo de Frontin – então só feminino) e eu decidi visitá-lo na volta do colégio. Marcou-me para sempre. Aquelas crianças tão desamparadas, que podia ser eu, pois que acaso nos faz nascer aqui ou lá, numa mansão ou num barraco, de uma cor ou outra? As meninas se agarravam à minha saia e pediam que as levasse para minha casa. Eu, totalmente despreparada para o que via, as abraçava de volta e prometia tudo. Não cumpri a promessa e por isso jamais as esqueci. Talvez por isso eu tenha desenvolvido uma necessidade de ajudar os mais fragilizados, dando aulas para crianças pobres, presentes, doces e alimentos.

Não sei foram as histórias de meu avô, alguns gestos de minha avó e de minha mãe, as situações que vivi desde cedo, e mesmo algo inerente à minha personalidade, só sei que algum bom modelo eu consegui para amar e me ocupar do próximo. Pela mesma razão, a hipocrisia e o cinismo me causam tremenda repulsa. E penso que o modelo que sigo tem a ver com o humanismo judaico, que olha e vê o outro. E penso em como o Brasil avança para uma eleição de pavor, na qual a falta de opção nos indigna e desalenta.

E penso em que modelos e lembranças esses homens tão corruptos e desalmados terão guardado em seu peito e em sua mente para se tornarem a pobreza que são. Que modelos lhes terão faltado?

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