Livre arbítrio

A capacidade humana de livre arbítrio, lembrada na prédica final do grão-rabino de uma comunidade ortodoxa inglesa, no filme Desobediência, nos leva a reflexões sobre o momento atual, que a humanidade está vivendo. De um lado, no plano individual, respeitamos as mais diferentes opções de relacionamento num lar, e de outro, no plano coletivo, as nações desenvolvidas fecham cada vez mais as suas fronteiras ao estrangeiro, em situação de penúria.

Na maior nação do planeta, se valendo do livre arbítrio, um presidente decide engaiolar crianças, como estratégia de sua política de tolerância zero com os imigrantes ilegais. Nada me fez lembrar mais a Alemanha nazista, que utilizando processos racionais, baseados no seu próprio desenvolvimento industrial, separava crianças de seus pais, para apressar a “Solução Final”.

E o mundo de novo permaneceu em silêncio diante desse abuso de autoridade, diante desse desrespeito aos direitos humanos. Aliás, esse ensurdecedor mutismo, que se repete na velha Europa, quando os barcos de “deslocados” ficam à deriva, até que os sobreviventes sejam poucos, para serem resgatados em algum de seus portos.

O choro das crianças, que nunca tiveram o direito de exercer o seu livre arbítrio, me faz lembrar o de outros tempos, em que éramos nós, os judeus, que mitigavam as autorizações de embarque e desembarque nos diferentes mares do mundo. Enquanto guardávamos em nossa memória, a dor das separações entre pais e filhos, ordenadas pela besta nazista.

Até hoje, reverenciamos as autoridades, que, em todo mundo, nos ajudaram a superar as dificuldades da emigração nos países conquistados pela Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. O próprio Museu do Holocausto “IAD VASHEM” reservou uma ala para homenagear esses “Justos entre as Nações”.

Atualmente, temos o Estado de Israel, que nos seus setenta anos de história, como nação moderna, já deu lições ao mundo, absorvendo mais de um milhão de russos da antiga União Soviética e centenas de milhares de Etíopes, entre outros diferentes fluxos migratórios. Há um tempo atrás, a Suprema Corte israelense ordenou que fossem aceitos um número expressivo de sudaneses.

Reconheço que cada país tem o direito de lidar com as ondas migratórias, de acordo com a sua capacidade de absorção, mas encarando o estrangeiro não como um transgressor, a priori. Por outro lado, temos que reconhecer, também, que ninguém abandona o seu lar, a sua família, a sua tribo, sem que esteja sendo perseguido, ou sem que esteja sendo negado o seu direito de viver, em condições dignas.

O livre arbítrio dos governantes das grandes nações deveria ser muito mais baseado no lema da velha Revolução Francesa “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, que lembra inclusão, do que na revivida doutrina de Monroe, “America for the Americans”, que tem a exclusão como princípio.

2 Comentários

  1. Alice
    Alice 25 de junho de 2018 at 23:47 |

    Sarita perfeito suas colocações! Parabéns!

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  2. lilian nigri dickstein
    lilian nigri dickstein 27 de junho de 2018 at 1:43 |

    Adorei o texto, Sarita.

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