Leituras relevantes

Ler é indispensável. Desde sempre. Desde a mais tenra idade. É a leitura que transforma o pensamento literal da criança em pensamento metafórico, rico em nuances e possibilidades ilimitadas.

O contrário é verdadeiro. Quem não lê permanece aquém de sua capacidade intelectual e se torna alvo fácil da manipulação. Como membro do povo do Livro, tento manter acesa a luz espiritual que incendeia a alma de ideias: o livro.

E depois, a leitura, ao se avolumar no cérebro, pode terminar escapando pelos poros e dedos, levando à escritura. Ler, refletir, pensar, amadurecer, aprimorar, quanta coisa nos traz um livro. Mágica pura.

Havia ouvido falar de crianças que saltaram de trens durante a Segunda Guerra, quando se encaminhavam para Auschwitz, e corri atrás de alguns deles. Encontrei Simon, l’enfant du 20º. Convoi, de Françoise Pirart e Simon Gronowski. A história narra o drama de Simon Gronowski, um menino belga que, após ser preso com a mãe e uma irmã numa prisão da Gestapo, foi deportado em 19 de abril de 1943, num trem de carga animal. O destino dos deportados era ignorado, mas após o sofrimento visto e sofrido na prisão, a mãe o ajudou a saltar do trem, quando o comboio foi atacado pela Resistência e forçado a parar por alguns minutos. Sua aventura pela floresta, os sustos, medo, conflitos e ajuda de estranhos, que o levaram de volta a Bruxelas, onde novamente precisou se esconder em várias casas até o fim da guerra, são uma mostra da sanha bestial nazista, bem como da coragem de quem ousou lutar contra o destino inexorável que estes lhes prepararam. Simon voltou a encontrar o pai vivo, que morreu de melancolia pouco após saber do trágico destino da mulher e da filha, em Auschwitz. Entre 1942 e 1944, apenas de Bruxelas e de Anvers, 25.000 judeus, dentre eles 5.093 crianças, foram levadas e mortas em Auschwitz. Conhecer histórias como a de Simon só faz enfatizar a necessidade que me envolveu de contar com ainda mais vigor a saga de Janusz Korczak e suas crianças.

Também acabo de ler O tatuador de Auschwitz, de Heather Morris, que conta a história de Ludwig Eisenberg, levado para o campo da morte em 23 de abril de 1942, e tatuado com o número 32407.

Por que ler histórias reais tão difíceis? Por serem reais. A história virou filme, que ainda não conhecemos por aqui. Conhecido por Lale, o jovem eslovaco ocupou, voluntariamente, o lugar do irmão casado e com filhos, convocado compulsoriamente para trabalhar para o governo alemão.

Levado para Auschwitz, logo decidiu que iria sobreviver a qualquer custo naquele lugar monstruoso e, salvo da morte com tifo por um desconhecido, foi cuidado e depois colocado como tatuador do campo, um cargo que lhe trazia algumas benesses por parte dos nazistas e muita desconfiança dos prisioneiros.

Tatuando Gita, ele se apaixona por ela, e decide que um dia sairão dali e se casarão. E, apesar dos inúmeros sobressaltos e sofrimento e violência sofridas, mesmo tendo sido separados ao fim da guerra, ele termina fugindo do campo e depois das mãos dos russos e vai em busca da amada. Retorna à sua casa, onde encontra a irmã Goldie, única sobrevivente de sua família. Mas algo lhe falta com urgência: Gita. Então, após buscas de meses, Lale termina por encontrá-la e com ela realizar o sonho plantado no campo da morte. As fotos do livro mostram o casal em várias épocas, até a velhice.

Mais uma vez, alguém se perguntaria a razão de ler livros tão sofridos. Sei que muitos judeus hoje os evitam, objetivando o futuro. E eu penso que o passado é o embrião do presente e do futuro. Assim, leria 6.000.000 de histórias, e seria como rezar por irmãos de fé que tanto sofreram, apenas por serem judeus.

Aí eu penso e como O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, nos ensina tanto. É em Shakespeare, lendo Othello, na cena em que o mouro, louco de ciúmes, vai matar sua amada e inocente Desdêmona, que ele diz: Apago a luz e apago a luz. Aprendemos que Shakespeare quer dizer que ele vai apagar a luz e ficar no escuro (as ações danosas estão ligadas à luz, justamente porque ela em vários sentidos lhes falta, e então apagará a luz de sua esposa (sua luz como símbolo de vida).

Então, José Dirceu, que está livre, ainda que com condenação farta, vai à Espanha lançar seu livro e diz aos repórteres: Falta pouco tempo para tomarmos o poder. E tomarmos o poder.

Sim, ele decerto leu Shakespeare. Mas pensa que poucos o leram no Brasil. Entretanto, a frase dele cola imediatamente à de Othello, e dá o que pensar. Pensemos, pois. Pensemos largo. Refletindo com muita calma.

O olhar de nossos candidatos à presidência parece o de homens atormentados, e trazem preocupação. Um, pelos erros e roubos já cometidos por seu ídolo & Cia. O outro, pelo mistério do desconhecido e nenhuma experiência administrativa. Algum deles está capacitado para um bom governo? Porque, se experiência valesse de algo, o senhor José Sarney, há 70 anos na vida pública, inclusive como presidente, algo teria feito pelo país, ou pelo menos por seu estado, e não apenas por sua família.

É… ainda teremos que fazer muitas leituras com nossos alunos e filhos, jovens e não tão jovens, especialmente para conseguir ler o que está nas entrelinhas do momento relevante que vivemos.

Comente