Leblon 2018


Moramos no Leblon há mais ou menos quatro décadas. Na nossa rua, como nas outras do Leblon, tinham poucos prédios e muitas casas. Com o mercado imobiliário em efervescência, essa situação foi mudando e os edifícios foram invadindo o bairro, principalmente na beira da praia, onde o gabarito parecia não ter limite.

Mesmo assim, a qualidade de vida era muito boa. Íamos à praia com as crianças e seus apetrechos, levando a cadeira e a barraca, como todo mundo fazia. Ainda não tinha a opção de aluguel desses itens, introduzida, mais tarde, para o conforto do usuário e para o aumento dos lucros dos barraqueiros. Me lembro da praia, ainda sem ciclovia, como uma festa, onde um grupo de crianças e adultos conhecidos se divertiam muito. Garimpei grandes amigos naquela nesga de areia.

No Leblon de ontem, o comércio era tradicional, com lojas grandes e antigas, com o dono comandando as vendas. Todos sabiam o seu nome. Só existiam as Casas Sendas e a Cobal para abastecerem as geladeiras. Os restaurantes e bares eram escolhidos como pontos de encontros, mais do que pela qualidade de sua comida e bebida. O Talho Capixaba era um açougue. Só o Kurt passou incólume por todas as transformações do bairro. Continua supimpa!

Viver os dias de Momo no Leblon era uma maravilha. O programa era praia, comer fora e cinema com os moradores do bairro. Não havia turista, nem nenhum bloco invadindo o nosso espaço. As cervejarias ainda não mandavam no carnaval de rua.

De repente, não mais do que de repente, o perfil do Leblon foi mudando, com o aparecimento dos prédios comerciais e dos shoppings. Primeiro proliferaram as farmácias, depois os cabeleireiros e as clínicas ortopédicas. Atualmente, os “Naturebas” disputam as preferências da galera.

Não posso deixar de mencionar a rua Venâncio Flores, que se destaca por abrigar a Sinagoga dos Lubavitch, o Centro Cultural Midrash e a Escola Liessin. Tudo junto e separado por altos muros.

Nesse meio tempo, um ícone do bairro foi demolido: o cinema Leblon, que era a referência de muitas gerações. A construtora promete respeitar a sua fachada, que surgirá embaixo de vários andares de salas comerciais. Vamos acreditar.

No final da década de noventa, o Leblon passou por uma reforma urbana, que lhe conferiu ares de modernidade, com os seus jardins e bancos de madeira, que hoje, já servem de abrigos de mendigos.

Quando tudo já estava arrumadinho, entraram em cena as máquinas do metrô, que permaneceram, por aqui, em torno de cinco anos. Tudo voltou aos seus lugares e hoje há uma estação de metrô bem amigável na Praça Antero de Quental. Mas, em torno dela, existe uma feirinha que vende desde sapato até utilidades para o lar; uma outra feirinha, aos sábados, de adoção de animais; e, todos os dias, uma infinidade de carrocinhas, que vendem cachorro quente, tapiocas, churros e pipocas, além de esfihas.

Aliás, nesse último quesito, há mais de vinte carrocinhas entre a estação do metrô e o Shopping. Imagino, um dia, uma guerra entre os vendedores desse salgado sírio, que pode ser consumido, ainda, nas lojas especializadas. Os preços variam e a oferta de combos acirra a concorrência.

As calçadas, ao longo da sua rua principal, foram invadidas por camelôs e mendigos. Não se consegue dar dez passos, sem ser abordado por algum “carente”. A população de rua vem aumentando desmedidamente. Por falar nisso, na esquina da José Linhares, assistimos a um “upgrade”: o mendigo virou camelô e já está comercializando livros usados, com bastante sucesso. Mas, continua dormindo na porta do Banco Itaú.

Consciente de que o que acontece no Leblon, acontece em todos os bairros do Rio, pela incompetência de seus governantes, resta o consolo de que, por aqui, ainda se conserva o ar provinciano de todo mundo conhecer todo mundo. Daí, o meu encanto em morar nesse pedaço do Rio.

Um comentário

  1. Sylvia Mekler
    Sylvia Mekler 24 de julho de 2018 at 16:04 |

    parabéns Sarita moro aqui no Leblon há mais de 45 anos e fico muito triste em ver a lojas boas que tinhámos sumirem, e especialmente ter tantos
    mendigos pedindo esmolas e dormindo nas portas dos bancos.
    Espero que agora em diante com a nova policia melhore.
    Parabens pelo seu artigo
    Um abraço
    Sylvia Meklerl

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