Impressões de um domingo de votação

O dia amanheceu com algumas nuvens, mas logo o sol se impôs. Após os afazeres prosaicos de dona de casa, lá fomos nós votar. Às 9 horas estivera vazio, mas agora, às 11, estava cheio – uma festa. Logo cruzei com uma mulher que vinha tão compenetrada, tão enlevada, como se tivesse saído de uma missa onde recebera a hóstia da comunhão. Era uma imagem impressionante. Nem todos, porém, tinham a mesma sensação de participar de feito tão especial como essa senhora.

A fila estava grande, o que não é comum nas seções de meu bairro. Nessas horas, é até divertido esquecer a prioridade e ouvir as conversas. Um senhor puxou conversa. Dei corda, por ofício. Era professor universitário e achava que Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves deviam ser exilados. Dei um leve sorriso e ele continuou. O Lula e o José Dirceu, também. E mais um monte de gente, enfatizou. Segui ouvindo; ouvir é mais importante do que falar, muitas das vezes. E ouvindo se descobre muita coisa. Numa fila longa, então, haja ouvido – e descobertas.

Logo, o homem que estava à minha frente juntou-se à conversa e comentou que havia ido a uma cerimônia de cremação (os assuntos abordados numa fila variam muito) mas se enganara e fora um dia antes. Pois foi avisado por um vigia local de que havia se enganado e deveria voltar no mesmo táxi. Um tiroteio acabara de acontecer bem próximo dali e não estavam seguros. A mulher do homem manifestou-se pela primeira vez, confirmando o susto sofrido. A violência da cidade chegara a um ponto insustentável. Algo tinha de ser feito, com rigor e pulso firme, disse o marido, no que ela ecoou: E vai ser feito!

Uma voz mais atrás de nós queixou-se alto de que enfrentava a terceira fila. As seções haviam mudado de número e ele, após enfrentar toda uma hora em pé, ouvira da mesária que estava no local errado. Foi para uma outra, também equivocada, e só então resolveu perguntar onde diabos se escondera seu antigo local de votação. Uma moça, cujo avental dizia que estava ali para ajudar, apontou, então, nossa fila. Ele votava há anos no mesmo lugar, nunca precisara perguntar nada a ninguém, e agora toda essa confusão, resmungou para ser ouvido por todos. Um amigo chegou e ele, após um forte abraço, contou-lhe toda a sua peregrinação, dando as contas para quem o ouvira antes.

Muitos idosos estavam votando. De bengala, apoiados por filhos ou acompanhantes, passavam por nós. Mas, ouvir histórias é tão bom – fiquei ali. Meu marido, ao contrário, acabou usando seu direito de idoso. Vi um senhorzinho bem atrás, pedi licença ao meu interlocutor e fui avisar o idoso (parecia um octogenário) de que ele poderia votar sem fila. Voltei ao meu lugar, satisfeita.

Outros dois homens passaram por nós. Um deles falava em alto e bom som que antes de depositar seu voto na urna ia ao banheiro depositar urina no vaso, já que estava muito apertado. Imaginei a cena se ele fizesse o contrário. O que o acompanhava perguntou-lhe se havia tomado cerveja, ao que ele replicou que não, mas iria beber muito após votar.

Duas mulheres comentavam que não diriam a quem deram seu voto para presidente. Era secreto. Imagina se vou dizer que votei em fulano, seguiu uma, ao que a outra confessou que votara igualzinho. E repetiam o nome de seu escolhido, desejando ser ouvidas. Boca de urna dissimulada?

Ao chegar à mesa, a mesária olhou meu título, meu RG, e disse para a outra: prioridade. Pronto. Perdi a segunda fila – a dos que haviam se identificado e aguardavam a vez de enfrentar a cabine. Era mesmo demorado, pois todos carregavam ‘cola’, tantos eram os candidatos e cargos a serem preenchidos. Se alguém entrava e saía em um segundo, ficava claro o que fizera.

O homem com quem eu conversara não tinha direito à prioridade e foi para a segunda fila. O que vinha atrás dele, com quem não troquei palavra, teve o mesmo destino, não sem antes demonstrar seu contratempo. Estivera em viagem pelo Canadá recentemente onde, segundo ele, não havia essa besteira de prioridade. Todo mundo fica velho e pronto. Fiquei calada, pois uma hora inteira se havia passado. A seção de meu marido tinha fila menor e ele já cumprira seu dever cívico, seguindo à minha espera do lado de fora. Fiquei calada, mas não pude deixar de pensar que muito se conhece das pessoas apenas cruzando com elas numa fila por uma hora. Até mesmo por alguns segundos. O dia acabara, a contagem dos votos começara, e a gente segue se perguntando quando o país viverá dias de paz e esperança. As impressões do dia analisadas com carinho, persistem as dúvidas sobre o amanhã do Brasil.

Torcemos para que nossos políticos amem o país e o povo que os elegeu!

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