Histórias de Vidas na Pandemia

Com um rico e diversificado acervo documental o Centro de Memória (CDM) do Museu Judaico de São Paulo tem como missão preservar a memória da presença judaica no Brasil. O Núcleo de História Oral Gaby Becker (NHO), integrando o CDM, reuniu, em 30 anos de trabalho, mais de 450 entrevistas de imigrantes judeus que se instalaram em São Paulo durante o século 20.

Em 2020, com a pandemia da Covid-19, o NHO iniciou um novo ciclo em seus trabalhos. Por meio das plataformas de videoconferência realizou, entre outros, o projeto Recortes, Histórias de Vida na Pandemia. Primeiro projeto em tempo real do Núcleo, teve como propósito a investigação do impacto desse dramático evento de saúde pública na comunidade judaica paulista.

Os desafios impostos nesse período foram muitos. Estivemos perto dos distantes e longe dos próximos; convivemos 24 horas por dia com a família nuclear – em homeoffice, no EAD – ou ficamos absolutamente sós; perdemos trabalho, amigos e entes queridos. Houve ganhos, certamente. Reavaliamos prioridades; aprendemos a nos adaptar e descobrimos novos talentos. Cada um enfrentou a pandemia à sua maneira, mas uma coisa é certa, ninguém escapou ileso.

Rezar, comer, amar
A família sentou-se à mesa. Era Shabat. Como todas as sextas-feiras as velas, o kidush, as chalot, as canções e os ensinamentos da Torá revelariam o vínculo da família com Deus, inspirariam e dariam significado às suas vidas. No entanto essa noite era diferente de todas as outras. Nesse Shabat os pais estavam reunidos com todos os 8 filhos.

O mais velho e o mais novo, perfeitos desconhecidos, sentavam-se lado a lado. O caçula tinha apenas 2 anos quando o primogênito deixou a família para estudar em uma Yeshivá em Israel. A pandemia o trouxe de volta para casa e naquela noite os vizinhos de mesa não cansavam de se olhar. Com o canto dos olhos, é certo. Ora vacilantes, ora curiosos, não cansavam de se olhar.

O pai distribuía generosos pedaços de pão aos filhos enquanto falava: nesse mês de Elul temos a oportunidade de criar, consertar e renovar os relacionamentos. Não esperem que alguém os ame. Aprendam a dar, a iniciar, a amar. E quando o fizerem, o amor voltará a vocês.

Há 4 anos fora de casa o jovem voltava a sentir nas mãos a maciez da chalá feita pela mãe. Nunca comera outra igual. Ia levando à boca quando, num impulso, virou-se para o lado e disse para o pequeno: “é para você, coma”. Este agarrou o pedaço de pão o mais rápido que pôde e o engoliu. Os irmãos mais velho e mais novo não cansavam de se olhar. De frente, é certo. Ora falantes, ora sorridentes, não cansavam de se olhar. E como se jamais tivessem se separado, cúmplices, cantaram animadamente Shalom Aleichem.
Texto inspirado na entrevista concedida pelo Rabino Marcos Zeev Begun

Ouvir, lutar, curar
O isolamento social e a apreensão com a saúde dos familiares somados ao trabalho insano que, em homeoffice, frequentemente invadia a noite não demoraram a cobrar seu preço da jovem advogada na pandemia.

Foi no judaísmo, ou melhor, no recém-inaugurado telejudaísmo que ela buscou alívio para sua crescente ansiedade. No Youtube descobriu o Rabino David Weitman. Seus ensinamentos tornaram-se música para seus ouvidos: “… as dificuldades são oportunidades para descobrirmos talentos, dons e recursos desconhecidos. Deus não quer que fiquemos de braços cruzados; quer que lutemos, que nos esforcemos, que demos nosso melhor”; “…se fizermos todo o possível para enfrentar um problema, só resta manter a calma, ter fé e confiança que tudo dará certo no final, que o desfecho será favorável porque Deus nunca fecha uma janela sem abrir uma porta.”

E ela lutou e se esforçou e deu seu melhor. Pela manhã ingeria as obrigatórias pílulas de conhecimento no Youtube; no almoço, consumia refeições congeladas, mas mais saudáveis, balanceadas; no fim da tarde, a esteira, que há anos cumpria, silenciosa, a função de cabideiro, cobrou 30 minutos diários de uso; às quintas o happy hour virtual com os amigos do trabalho era lei; o Shabat em familia, antes raro, agora acontecia toda semana pela plataforma Zoom com direito a velas e canções.

E quanto ao desfecho, foi favorável? Bem, ela não saiu ilesa dos intensos cuidados com o corpo, com a alma e com a nova e agitada vida social virtual: sono de bebê, boas gargalhadas, uns bons quilinhos a menos e expediente das 8h às 17h, religiosamente.

Texto inspirado na entrevista concedida por Eliana Rozenkwit

 

7 Comentários

  1. ISRAEL BLAJBERG
    ISRAEL BLAJBERG 7 de novembro de 2021 at 10:44 |

    um psicologo me disse que às vezes a doença vem para ensinar alguma coisa. e a pandemia, mesmo para quem escapou dela, certamente tambem ensinou.

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  2. Débora Barmak
    Débora Barmak 7 de novembro de 2021 at 11:11 |

    Olá Israel! Obrigada pelo comentário.
    Sim, sim, sempre podemos aprender, até nos maus momentos. Basta estarmos atentos. Abss

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  3. Gilda Milman
    Gilda Milman 8 de novembro de 2021 at 0:11 |

    Duas estórias diferentes, mas iguais em resiliência , aprendizado e amor!

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  4. Gilda Milman
    Gilda Milman 8 de novembro de 2021 at 0:11 |

    Duas estórias diferentes, mas iguais em resiliência , aprendizado e amor!

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  5. Debora Barmak
    Debora Barmak 8 de novembro de 2021 at 0:31 |

    Querida Gilda!
    Sim, sim. Isso mesmo! Era o que eu pretendi transmitir nas 2 histórias.
    Grande bj

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  6. Marco Barmak
    Marco Barmak 8 de novembro de 2021 at 8:04 |

    A dificuldade por mais desafiadora que seja, se abordada de maneira correta, irá desenvolver suas características.
    Lindo texto.

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    1. Débora Barmak
      Débora Barmak 8 de novembro de 2021 at 9:56 |

      Oi Marco,
      Que bom ouvir vc aqui. Sim, vivendo e aprendendo, né?
      Valeu! Bjsss

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