Fogo, balas e doces

O Hamas deu mais uma de suas muitas aulas de horror e covardia. Empurrou e infiltrou-se entre milhares de pessoas: crianças, mulheres, bebês e idosos, para a cerca que separa Gaza de Israel, e pôs fogo nas plantações israelenses, queimou pneus, levantando uma fumaça tóxica de quilômetros, lançou pedras, pedras enormes que voavam de catapultas, plantou o horror porque horror é tudo que conhece e propaga. Pois em resposta à apologia da desgraça e da destruição, Israel devolveu as pipas incendiárias que recebeu dos terroristas com balões recheados de doces para as crianças das terras vizinhas.

Na Guatemala, onde uma tragédia ocorreu com a erupção vulcânica que arrasou vilarejos e matou mais de 100 pessoas humildes, Israel também respondeu imediatamente, enviando um grupo de socorristas com mantimentos e material de primeiros socorros.

Para a África, já vários grupos israelenses foram para lá escalados, ensinando a tecnologia agrícola que permite plantar e fazer crescer no solo desértico.

Como não sentir orgulho de Israel? Lembro sempre de Elie Wiesel e sua frase: ‘Alguns judeus podem me desapontar, mas não o judaísmo’. Percorremos a História Mundial e encontramos um povo que não fez proselitismo de sua fé, não forçou membros de outra religião à conversão; um povo que, apesar de forçado a praticar a usura por ser atividade condenável pela Igreja Católica à sua Congregação, não agiu com mesquinhez diante de seus devedores.

Aliás – e a propósito, uma boa conhecida de palestras, uma moça negra que luta para publicar suas histórias infantis e vem tendo merecido sucesso, encontrou-me há poucas semanas – numa palestra, para variar, e comentou que lera Ivanhoé, de Walter Scott, ficando horrorizada com o tratamento dado aos judeus pelo autor. Voltei, então, ao livro que na Faculdade de Letras foi mencionado em sala de aula, mas cuja leitura não foi feita.

Com efeito, o livro se passa na época do Rei João, da Inglaterra, também conhecido como João sem-terra; eram tempos que antecederam a expulsão dos judeus da Inglaterra, em 1290. O autor, embora coloque nas falas dos personagens cristãos impropérios contra Isaac, o judeu que detém o dinheiro e o (grande) poder de empréstimo, não deixa de mencionar, várias vezes, que se trata de ‘povo injustiçado, humilhado e sofrido’. E faz de sua linda filha Rebeca a autora de generosidades para com o humilde guardador de porcos, oferecendo-lhe dinheiro extra para que ele compre sua liberdade.

Leio sempre com muita atenção os livros que abordam judeus e judaísmo, e mais conheço a história de meu povo, mais me orgulho de ter nascido no seio de uma nação que ama o seu próximo, a vida, a humanidade como um todo, e trabalha em prol de suas ideias.

Na semana que passou, assisti ao novo ‘Anna Karenina’, visto sob a ótica do conde Vronski – um show de fotografia, figurino e emoção, e também ‘Dovlatov’, a história do escritor que foi dos mais respeitados na Rússia do século XX, e sua luta de 20 anos, no início dos anos 1900, para conseguir ser editado. Sergei Dovlatov era meio judeu, meio armênio.

O judeu não é perfeito – longe disso, mas busca a perfeição. Não é dono da verdade, mas vive em sua busca; e a dignidade é igualmente meta diária. Posso não concordar com políticas israelenses eventuais, mas reconheço que se trabalha arduamente em busca de um caminho para a paz, que será palmilhado quando os dois lados assim o desejarem. Judeus e árabes foram vítimas de perseguições e humilhações por séculos, mas judeus respondem criando um futuro. Não existe paz unilateral, e ela requer justiça social, lá, aqui, e em todo lugar.

Mas convenhamos, devolver pipas de fogo e destruição com balões recheados de doces e balas é surpreendente e indubitavelmente simboliza a mão estendida. Não vê quem não quer. Ou é cego demais para enxergar.

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