Emprego e informalidade – Parte 3

Não falarei do temor de Temer diante da possibilidade cada vez maior de ver suas contas abertas. Devia, antes, expô-las voluntariamente, já que nada teme. Será? O cerco se aperta para muitos políticos que se julgavam acima da lei, não recebendo afrontosamente oficiais de justiça e ameaçando contar tudo sobre seus pares se algo lhes acontecer enfrentando a Justiça. Por sua vez, a Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, tem se mostrado forte e impecável. Que assim continue! Bem como a Ministra Carmen Lúcia. Quanto aos Ministros, que lhes tragam tochas e mais tochas, como diria Shakespeare diante de cenas em que perigos ameaçam os personagens, levados a praticarem maus atos. Agora, diante do que se vê prestes a acontecer a certo pré-candidato que o clube Hebraica, num arroubo infeliz e guiado por pretensa liderança, levou para falar naquele local, local, aliás, que sempre primou por receber estadistas e homens da maior dignidade, é com ansiedade e tristeza que aguardamos que os responsáveis pelo malfadado convite se expliquem e esclareçam o imbróglio, pois quem agiu de forma tão impensada não representa a comunidade judaica. Ao escolher levar apenas um pré-candidato, fez sua escolha particular e deve esclarecer publicamente seu ato. O povo judeu, que conheceu a escravidão, a intolerância, a humilhação e a extinção de 1/3 de sua gente, que resgatou seus irmãos etíopes de uma miséria antiga, não deve e não pode ver seu nome associado a preconceito ou qualquer outro gesto ou atitude ou palavra que prejudique um ser humano, seja qual for sua cor, credo ou inclinação sexual. Isto posto, vamos ao tema da semana. Com a educação a níveis nunca antes vistos na história do país e o desemprego igualmente estarrecedor, melhor falarmos de algo em seu benefício.

EMPREGO E INFORMALIDADE 

A responsabilidade do Poder Público

Um Poder Público que gera e mantém semelhante situação de despreparo tem o dever de se envergonhar de tamanha e despudorada negligência. E se envergonhar de novo de sua pequenez que diminui o país e os homens que o conduzem. E mais uma vez se envergonhar por sua irresponsabilidade, que condena sem chance todo um povo. O vácuo da Educação é produto de um sistema egoísta, de governos sem visão de Estadistas ou de um mínimo senso de humanidade, pelo que não merecem nenhuma clemência.

Diz-se que o crime cometido por um juiz ou um político é infinitamente mais grave do que o cometido por um leigo, porque aquele conhece as leis profundamente, e deveria usá-las unicamente para ajudar os que a elas recorrem, através do poder a ele conferido pela magistratura. Ao violá-las em seu próprio benefício, peca em dobro, e com rigor dobrado deve ser penalizado.

Do mesmo modo, o Poder Público é tão ou mais culpado quando fere o direito inerente ao homem porque, embora com o dever de administrar o bom funcionamento do país, opta por abandonar seus cidadãos, não os educando condignamente.

Há que preparar toda uma geração para ocupar esse espaço vazio. O país possui uma juventude inteira esperando e clamando por boa Educação. Possui, de fato, muita gente cujo potencial aguarda apenas vontade política autêntica para desabrochar. A criatividade do brasileiro já é reconhecida, e não são raros os jovens que, apesar de todas as dificuldades, conseguem sobressair. A partir daí, alguns são pinçados para, à custa de enorme esforço, atingir um futuro brilhante.

Se tal é a situação em meio à ausência do Poder Público, pode-se imaginar o futuro de todos esses brasileiros quando receberem a Educação, aliada à Saúde e à Moradia que lhes são garantidas constitucionalmente. Por agora, o povo, por desconhecimento de seus direitos, mantém-se atordoado, e o país segue numa das piores colocações no ranking mundial que analisa, por exemplo, Educação, leitura, segurança; dados que influenciarão, por certo, na péssima colocação no quadro de estatísticas de qualidade de vida.

O Brasil abriga um imenso contingente de excluídos, gente mantida à margem de qualquer evolução tecnológica, do menor sintoma de progresso e, por conseguinte, de uma vida com dignidade. Sem modelos positivos formais, desenvolve sua criatividade na exploração da criminalidade. Abandonados pelo Poder Público, milhares de jovens, cheios de energia desperdiçada pela inação, são incluídos nas tropas do Poder Paralelo do tráfico.

Numa sociedade em que a Educação se deteriora a olhos vistos, em que a maior parte da juventude não tem acesso ou orientação para a leitura, o que grassa é um canto de Circe atraindo-a para valores imediatistas e ocos. A partir daí, ver uma geração ser levada em grande número para o abismo, como crianças hipnotizadas pelo flautista do conto da carochinha, não admira tanto.

Ao contrário, é de se prever que, onde a lacuna da Educação se agiganta, vinguem o desvio e o abuso sexual de jovens e crianças, levadas a tal exploração pela fome e pela desinformação, inclusive dos próprios pais. Mas, a desinformação não inocenta ou protege o Poder Público. Este, ao deixar de cumprir sua obrigação primordial de protegê-las, compactua com seus algozes, e como cúmplice, senão mentor, deve ser punido.

Milhares, mais do que isso, milhões de crianças sem a devida assistência, mantidas longe das salas de aula, sofrem o abuso do trabalho infantil, geralmente forçado, que lhes rouba a infância. Ao lado de tamanho disparate, um outro, ainda maior, as empurra para atividades criminosas; em tal contexto, o comércio sexual de crianças surge como inevitável. Em países em desenvolvimento, a proporção ultrapassa os 90%. Na América Latina, o Brasil lidera o triste ranking da prostituição infantil.

Crime tão hediondo é resultado de um Estado que não vê suas crianças como pessoas a serem preparadas com carinho, para aprimorarem sempre e cada vez mais o país. Cego, apenas enxerga em seus pequenos montes de carne fresca a serem manipulados e satisfazerem adultos perversos e pervertidos. Não lhes visualiza a alma, não vislumbra o ser humano, como ensinou Montaigne. O setor do sexo prolifera naturalmente num país que não cuida da Educação de seu povo. Se o Estado for inepto para oferecer alguma perspectiva de futuro a seus jovens, sobrevirá mais desamparo: familiar, social e do próprio Estado.

O Poder Público precisa ser eficaz e punir os que abusam da vulnerabilidade infantil. Os 15 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente foram comemorados com a esperança de que em breve venha a ser cumprido o que ainda permanece mera abstração no papel. ND foi feito, vários anjos após o aniversário debutante.

Enquanto isso, o Brasil assiste, impotente, à dilapidação de seu melhor capital, o ser humano, um material que merece e tem o direito de vicejar e florescer; que precisa receber tudo o que lhe cabe, por lei e por humanismo, porque só então devolverá ao país, em troca, o melhor de si.

Um comentário

  1. Gisela Claper
    Gisela Claper 18 de abril de 2018 at 0:25 |

    Brilhante e triste ao mesmo tempo o seu artigo sobre o nosso Brasil, Miriam.

    Sima Sztulman (z’l), minha grande amiga q perdi ha seis meses em Israel, sempre me falava da sua capacidade como jornalista. Kol Hakavod. Gisela Claper desde Baltimore, USA.

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