Emprego e Informalidade – Parte 2

 

Não quero falar do teatro de 26 horas, sabido que estavam todos os fanáticos apaixonados do homem que devia entregar-se à Justiça (ele como protagonista, abraçado, alisado, beijado) fazendo um documentário para uso eleitoreiro, nem do desrespeito ao Judiciário, que cumpriu as etapas legais até o mandado de prisão – tudo vindo do homem que governou o país por 8 anos. O bem que fez pelos pobres (encontrou o país em ordem, com o plano Real) perde o valor ao lado do maior assalto aos cofres públicos a que deu origem, conivência, permissão, seja lá qual tenha sido sua participação, pelo visto nada pequena – e por enquanto. Há outros processos em andamento. Torci por ele, pois creio na necessidade de justiça social – através de educação para todos. O Poder requer maior responsabilidade nos erros, e aqui houve muitos. Que os ministros do STF pensem no país e não se percam em firulas vazias. O país precisa marchar para o futuro e ter certeza de que a lei vale para todos. Assim, volto ao tema de Emprego, tão urgente no Brasil.

EMPREGO E INFORMALIDADE. PARTE 2.

Chega de improvisação.

Construindo um Brasil moderno

Se acreditarmos nas palavras do escritor João Ubaldo Ribeiro, que definiu o brasileiro como um mau-caráter congênito, – uma extensão de Macunaíma, o célebre personagem de nossa literatura -, veremos que usou de bastante humor, mas infelizmente – haja vista a mais recente e enorme crise de corrupção no país – confirma-se sua teoria jocosa como ácida verdade, e então, a reforma a ser feita no Brasil há que ser ainda mais profunda e dolorosa do que a chinesa.

Não se incorra, entretanto, em generalização perigosa. Bons modelos existem, e estão aí para serem copiados, com as devidas alterações cabíveis. Como diziam nossos avós, em sua receita caseira de educação, e avós são sábios ao reconhecerem os asiáticos: há que se copiar apenas os bons exemplos, e passar longe, bem longe, dos maus. E dos falsos Messias.

Na América do Sul, o Chile floresce e paira acima dos outros países da região. E não se pode esquecer que ali grassou um ditador de nome Pinochet, disseminando brutal totalitarismo por muitos anos. Entretanto, apesar dele, com ele, o país se desenvolveu, e hoje é respeitado como nação de primeiro mundo. E por quê? Pela opção governamental que acompanha a história daquele país, em prol da Educação. Uma Educação de qualidade, desde a mais tenra idade, preparando cidadãos para o mercado de trabalho e gerando divisas que, por sua vez, geram mais trabalho, numa espiral de inevitável sucesso.

Aí começa o problema do Brasil. Gigante adormecido, de incontáveis riquezas, além de natureza privilegiada, sua história é uma continuidade de violações e frustrações, fruto, em princípio, de uma colonização que não veio habitar e povoar pensando nas próprias famílias, mas sim explorar uma colônia prostituta, como um frio cafetão. Séculos depois, com a vinda da Corte portuguesa, a colônia mudou e a independência de Portugal foi conseguida pelo Brasil; faltou-lhe – e ainda falta – a liberdade verdadeira, que advém da Educação.

A democracia, não é nenhum segredo, implica em responsabilidade, e responsabilidade implica em discernimento, que provém, em última análise, de Educação. E está se falando de uma Educação total, fundamental, que represente a junção de alma e corpo no mais alto nível, a formação de um homem, conforme mencionada por Montaigne.

Então, uma política que vise a geração de empregos de qualidade deve, antes de qualquer coisa almejar, incrementar, ter como objetivo maior e primeiro, uma Educação de qualidade. Trabalhar em prol da “polis” (cidade) e de seus habitantes. E não há como se deixar enganar por qualquer plano demagógico. Nada de esmolas que permitam o saque do Estado. Faz-se necessário começá-la pelo ensino básico. Levar todas – todas mesmo – as suas crianças pela mão até uma escola que funcione para elas, por elas, com elas. Não se geram empregos de qualidade se a mão de obra que a pretende não estiver apta para aproveitá-los. O resultado será a frustrante comprovação de vacância de profissionais qualificados.

Que o digam os headhunters em sua árdua busca de talentos. Há alguns empregos de altíssima qualidade, esperando por um pessoal verdadeiramente qualificado. Tem-se aí um outro complicador, pois o Brasil exporta seus melhores cérebros, assediados por países que lhes oferecem oportunidades irresistíveis. E as vagas existentes no Brasil seguem à espera de quem as ocupe, ao lado de desemprego recorde, como nunca antes visto. O grande número de desempregados jovens se deve ao despreparo Educacional. No Brasil, simplesmente não se estuda o suficiente. E não se estuda o suficiente porque o Poder Público e o Estado não acreditam na Educação, ou são relapsos para arregaçar as mangas e se empenharem para implantá-la – ou reimplantá-la – como devido.

Onde dez anos de escolaridade, como acontece em alguns países da Ásia, por exemplo, seria o mínimo necessário para dar alguma chance real a um jovem que almeje participar de uma disputa por emprego razoável, o Brasil apresenta um contingente imenso de pessoas com dois, três, no máximo quatro anos de escolaridade. Para não falar nos analfabetos funcionais, que apenas e mal assinam o nome. A modernidade não coaduna, em nenhuma hipótese, com pouca instrução. Nem com manipulação. Nem com tanta informalidade e improvisação.

Um comentário

  1. chaia zisman
    chaia zisman 10 de abril de 2018 at 11:49 |

    Ótima análise de Miriam Halfim. Sem educação, impossível progredir.

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