Emprego e informalidade (parte 1)

“Não é uma alma que se forma, nem um corpo: é um homem. Não se deve separá-los”.

Montaigne, em seu ensaio ‘Da Instrução das Crianças’.

Após anos de convivência familiar – onde o amor maternal e a segurança da presença paterna, sem contar com a proximidade carinhosa de avós – e de acúmulo de experiência estudantil, o ser humano finalmente se encontra apto ao seu primeiro emprego. Já terá participado de algum, – ou de alguns – estágios na profissão para a qual vem se preparando com afinco, e logo se integrará à comunidade útil, com um sentimento de pertencer ao grupo que é responsável por ele e pelo qual se sente responsável, que o aliviará e fortalecerá a cada dia, preparando-o para atuar ainda melhor na hora de renovar o ciclo da vida, e dar ao país uma nova e ainda mais especial geração de brasileiros…

O texto acima ainda pertence ao futuro. O país de hoje conhece uma realidade diferente. A sociedade reflete um número cada vez maior de famílias onde a mãe cria seu filho sem a presença do pai. Avós também não estão sempre ao lado dos netos, por várias razões, desde conflitos familiares até distâncias geográficas, ou necessidade de trabalhar para compor aposentadoria insuficiente.

A escolaridade no país também carece de qualidade e de continuidade, empurrando para o desemprego ou – subemprego – um imenso contingente de pessoas absolutamente sem preparo para um mercado de trabalho cada vez mais sofisticado.  Como resultado, observamos pessoas com baixa autoestima, cheias de rancor diante de um Poder Público que as abandonou e relega a um presente duro, sem qualquer perspectiva de mudança positiva num futuro que já se vislumbra sombrio.

Há solução? Por certo que sim. Será de fácil execução? Por certo que não. Mas a estagnação não ajuda em nada, e assim só nos resta preparar a revanche e lutar.

 

Políticas de geração de empregos de qualidade.

Qualquer abordagem escolhida para falar de empregos de qualidade deverá passar pela Educação, e pela Educação de qualidade, que acompanhe as necessidades do terceiro milênio. Deve-se instruir crianças para forjar homens capazes. E instruir, educar para formar um homem de verdade, dá trabalho, muito trabalho.

Envolve desde o corpo, cuidando da parte esportiva, de higiene básica, da alimentação apropriada, de vestuário de acordo, para mencionar o minimum minimorum de seus pré-requisitos, até a alma, tratando-se aí de formar uma boa personalidade, moldar um caráter firme, fazer desabrochar a genialidade que é imanente a cada ser humano.

Parece complicado? Não é. Trabalhoso e sério, sim, mas não complicado. E vem surgindo efeito em vários países onde a vontade política, aplicada pelo Poder Público e pelo Estado com idoneidade, e trabalhada em conjunto com a família, testemunha sua ascensão entre as nações.

 

Remodelando sociedades

Assim o Japão, que sofreu enorme perda durante a Segunda Grande Guerra, – Hiroshima e Nagasaki foram marcos na tecnologia bélica – conseguiu reerguer-se para ocupar lugar de destaque no mundo. O mesmo se deu com a Alemanha, totalmente destruída em 1945. O nível de educação do povo, em ambos os casos, sem dúvida contribuiu para sua reconstrução.

A China é outro exemplo a ser mencionado. Fechada para os outros países por séculos, e atravessando o desastre que foi a revolução cultural implantada por Mao-Tse-Tung, passou, com Deng Xiao-Ping, a aplicar fortemente na Educação, na Ciência e na Tecnologia. O crescimento extraordinário que sobreveio na economia da China é fruto de um trabalho de muito esmero e inabalável perseverança, fatores primordiais para alavancar e atingir uma posição de destaque mundial, que se configurou com a política inteligente, que finalmente abriu o país para o Ocidente.

Seu projeto Educacional visou, – ainda visa, pois em constante atuação – não apenas o conhecimento teórico, mas também a prática de todo o aprendizado adquirido, sem esquecer o principal e sine qua non, qual seja, a formação do caráter do estudante.

Para avaliar a importância dada à Educação pelos países asiáticos, cabe citar um artigo de Cláudio de Moura Castro, publicado na revista Veja, aos 10 de novembro de 2004, sob o título de ‘A Vovó na janela’. Ali se lê que, nos países da Ásia, cabe às avós a tarefa de vigiar as crianças da família e garantir que as mesmas compareçam às aulas. E mais, ainda cuidam para que permaneçam atentos e respeitadores às palavras dos professores. Então, basta visualizarmos a cena descrita pelo jornalista e teremos um retrato da grande porção de responsabilidade que toda a sociedade, desde a família até os educadores, – sob a égide do Poder Público e do Estado – tem na Educação de suas crianças.

 

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