“É assim que eu conto”

Casa em Macapá da família Zagury

“Gosto de ficção principalmente quando usada para falar da vida real. Resolvi então fazer parecer mentiras as verdades que vivi.”

Lembranças da infância no interior de Macapá e histórias vivenciadas no âmbito da medicina compõem o livro É assim que eu conto de Leão Zagury, que será lançado no próximo dia 21 de março na livraria Travessa do Leblon.

Médico endocrinologista, Leão Zagury presidiu a Academia de Medicina do Rio de Janeiro e foi fundador e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. É autor de Diabetes sem medo, O menino e o macaco Caco, O jacaré que comeu a noite.

Leão Zagury

A entrevista com o médico escritor você acompanha a seguir. Vamos lá?

.É um livro autobiográfico?

-É um livro de memórias disfarçado, onde mudo o nome dos personagens e misturo realidade com um pouco de fantasia.

.Fale sobre a origem de sua família.

-Meus avós maternos vieram do Marrocos para Parintins, interior do Estado do Amazonas, no século 19. A grande imigração de judeus marroquinos para o Norte do Brasil ficou conhecida como “Eretz Amazonia” e marca a presença judaica na Amazônia.

Meus avós paternos foram para Macapá, que naquela época era uma pequena cidade com cerca de 8 mil habitantes e pertencia ao Estado do Pará.

Meus pais se conheceram em Belém e, após o casamento, foram morar em Macapá, onde a família do meu pai tinha um pequeno comércio.

Meu avô paterno, Leão Zagury, chegou ao Brasil, sem um tostão no bolso e começou a trabalhar como “klienteltchik” (vendedor ambulante). Ele chegava de barco nas casas e vendia diversos tipos de mercadoria. Depois disso, abriu um armazém de Secos e Molhados e, finalmente, uma loja com mercadorias e presentes.

Tornou-se um expoente na sociedade e foi nomeado Capitão da Guarda Nacional, uma força militar organizada no Brasil, durante o período regencial e que pode ser comparada ao atual exército militar.

.Com quantos anos seu avô chegou ao Brasil?

– Com 15 anos e em 1871, se naturalizou brasileiro. Não conheci o meu avô, mas tenho uma forte ligação com ele, não só por carregar o seu nome, mas também pelas histórias que ouvi sobre ele.

.Como foi a sua infância?

-Nasci em Belém e passei a minha infância em Macapá na casa, que aparece na capa do livro. Na adolescência fui estudar no Rio de Janeiro, onde morei com os meus tios. Nas férias, que naquela época iam de novembro a março, morava em Macapá e foi nessa casa que ouvi muitas histórias, principalmente, as do meu tio de criação, Casimiro.

.O tio Casico que você descreve no livro?

-Sim! Ele foi o melhor amigo do meu pai. Era negro, filho de escravos e adorava contar histórias. Eu gostava tanto do tio Casico, que uma vez raspei pó de carvão e passei na minha pele, só para ficar igual a ele. Ele era sócio do meu pai nos negócios, porém entrou nessa sociedade apenas com o seu trabalho.

.Como era a sua relação com o seu pai?

-Meu pai foi a pessoa mais generosa que conheci na vida. Ajudava quem o procurava, mas sem emprestar dinheiro. Ele pagou os estudos de várias crianças da minha cidade. Tinha um grande Bazar em Macapá e nunca demitiu ninguém por conta de cortar custos.

Como empreendedor abriu uma fábrica de guaraná no Amazonas, a “Flip”, cujo slogan era “guaraná de guaraná”. Infelizmente, com a entrada da Coca-Cola na região, ele foi obrigado a fechar a fábrica, pois não tinha como competir com a multinacional.

.Algum médico na família ou você seguiu essa profissão por pura vocação?

-Meu pai, além de ser muito generoso, tinha um sonho de ser médico, mas não conseguiu concretizar. Isso me despertou para a medicina e na forma como conduzi minha carreira.

.O lado humano?

-Ao contrário do que ouvi de muitos professores, de que “a medicina é maravilhosa, os pacientes é que a estragam”, sempre tive cuidado com os meus pacientes e o meu método de educar diabéticos, que foi amplamente reconhecido e destacado pela comunidade médica, posso dizer que foi inspirado em meu pai.

Dinheiro não era problema para ele, que nunca pensava nisso. Acho, que herdei essa característica do meu pai (risos).

.Você já escreveu um livro sobre diabetes e dois para o público infantil. Fale um pouco sobre eles.

-O livro de medicina é resultado de meus trabalhos, que foram publicados em ,revistas especializadas, inclusive no exterior. Os dois livros infantis são histórias que inventei e contava para os meus filhos quando crianças e agora, esse livro, que são histórias da minha infância, juventude e vivências como médico, relatadas em forma de crônicas ou contos.

 

 

 SERVIÇO

Lançamento: Livraria da Travessa – Leblon

Dia: 21 de março de 2018, terça-feira

Horário: 19 h às 22h

Endereço: Av. Afrânio de Melo Franco, 209, loja 205-A

Tel.: (21) 3138-9600

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