Derrota

O jornal fala em derrota da Lava-Jato. Acho que derrotado sai o país, saem os Poderes. O Executivo finge que existe, mas apenas posterga um ajuste com o Judiciário. O Legislativo legisla em causa própria, sem refletir a crise do país ou a penúria dos milhões de brasileiros, penúria causada pelo imenso roubo no Erário Público causado por nossos políticos (já sabem quem é o maior deles).

A derrota que se quer da Lava-Jato vem de um desamor atávico pelo Brasil. A responsabilidade maior está no STF, justamente a Corte que devia ser o símbolo maior de Justiça no país. Mas como? O Ministro Gilmar Mendes soltou mais de 20 presos em tempo recorde, garantiu habeas corpus com explicações que só a ele e aos seus pares similares convencem. E só ele não percebe que demonstra receio da Justiça, de que surjam mais versões como a de que beneficiou amigos, pessoas com quem tinha laços de amizade tão fortes que o fizeram padrinho de casamento? Não se dá por suspeito nunca? Está acima da lei? Deseja mostrar que é o cachorro que abana a cauda da lei, opondo-se ao que pensa inaceitável em Juízo abaixo do seu? E apagar que recebeu valores altos (doados? Por algum serviço?) para o seu curso de Direito? O advogado de Gleise Hoffmann, que ainda está enrolada em outros três processos, é professor em seu curso? É também seu advogado?

O Ministro Lewandowski, outro garantista, um eufemismo que usam para seus atos nada republicanos, desde a viagem para se encontrar com Dilma Rousseff em Lisboa, tem mostrado a que veio. Dias Toffoli, que falhou em quatro concursos para juiz, mas chegou lá por indicação mui amiga, e viu seu nome envolvido numa reforma milionária de sua casa, agora mansão, também não deixa dúvidas sobre a necessidade de mudanças radicais no STF.

Mello Porto está há 28 anos no STF e briga abertamente com a Ministra Carmem Lúcia devido a pautas. Não briga ao manobrar para colocar parentes no TJ. Tudo que é estranho aos desejos dos ministros do STF é digno de estranhamento ou questionamento.

Luiz Fux também já escorregou: numa carteirada no aeroporto (o povo esquece rápido) e na manobra para colocar a filha como desembargadora. O STF se crê dono do Brasil, mas não ama o país. Ama Maquiavel mais do que Thomas Morus. Eu digo que é preciso muita força de vontade e de caráter para ter poder nas mãos e usá-lo com sabedoria.

O que se nota é que há algo de podre no reino do Brasil; que há mais coisas entre os Poderes do país do que supõe nossa humilde e vã sabedoria; que não se deve envelhecer (nem chegar a cargos de Poder) antes de se tornar um sábio; frases de 400 anos, mas sempre atuais e úteis. Pena que nossos poderosos não amam os livros como Próspero o fez. Próspero é o protagonista de ‘A Tempestade’, de William Shakespeare. Leiam-no, senhores ministros e políticos. Teriam gostado de assistir aos Encontros com Shakespeare na Casa da Leitura. Em agosto tem mais Shakespeare (de graça) e chega a peça sobre Janusz Korczak, outra figura que nossos poderosos deviam conhecer. Ah, como há o que se aprender!

Nosso prefeito Crivella, por outro lado, demora a prender; por isso se expôs como cantor num show beneficente para ajudar a construção de um memorial para o Holocausto. Não precisava. Rendeu magros R$130.000,00. Ele renderia mais se cuidasse da infraestrutura da cidade, se pagasse as passagens de alunos de escola pública que foram selecionados para a Olimpíada de Matemática em Singapura e não têm recursos, se terminasse as obras paralisadas que tanto envergonham e fazem falta aos cidadãos, se ocupasse (enfim!) o posto para o qual foi eleito, se cuidasse dos hospitais, das escolas, da segurança, dos milhares de sofredores que hoje habitam marquises e praças, se trabalhasse para uma qualidade de vida que se deteriorou estupidamente para os que vivem nesta abandonada, saqueada cidade carioca. Gastaram muito dinheiro na reforma do palácio do governo para abri-lo à visitação pública. Não pode funcionar porque se esqueceram de cuidar da verba da manutenção. Ficará fechado e apodrecendo.

Dinheiro mal empregado, de novo.

Se não lutarmos para ter um Brasil digno para todos (repito sempre algumas palavras, mas é porque acredito em feedback), a derrota será de todos nós, e não sobrará espelho para refletir as tolas vaidades de nossos poderosos.

Enquanto os torcedores gritam: Vai Neymar! Vai Brasil! Nos jogos da Copa, nosso STF abençoa e murmura, sorrateiro: vai para casa, José Dirceu, Eduardo Cunha (este não saiu apenas porque tem outras condenações) Genu e toda uma patota de craques da corrupção. Derrotados os ministros em sua elevada função primordial. Quem, afinal, em tanta mixórdia, sai realmente derrotado?

Um comentário

  1. manoel adler
    manoel adler 4 de julho de 2018 at 21:01 |

    PARABÉNS ….
    O seu artigo mais uma vez, deve ser divulgado.
    É pena que o nosso povo não não tem capacidade e cultura para protestar….

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