Cadê o franguinho que estava aqui?

A greve dos caminhoneiros até a última sexta feira me parecia uma reivindicação justa de uma classe trabalhadora explorada pelo capitalismo selvagem.

Mas esse pensamento perdurou até sexta-feira, porque no sábado ao abrir a minha geladeira e deparar-me com ela quase vazia, minha ficha caiu e comecei a rever os meus conceitos…

-Cadê o franguinho que estava aqui?

-Como vou sobreviver sem minhas batatinhas doces?

-Como vou malhar, sem antes comer o meu potássio, ou seja, banana?

-Como manter a minha dieta rica em verduras?

Após essas pequenas reflexões de sobrevivência básica, resolvi ir até o supermercado mais próximo e resgatar o que pudesse para manter meus suprimentos para os próximos dias.

Minha falta de experiência em economia de guerra é justificável, pois nasci nos anos 60 e nunca morei na Venezuela.

Fui às compras!

No caminho para o supermercado fui passando por pedestres carregados de sacolas com produtos de todos os gêneros.

Apertei o passo, receosa se sobraria alguma coisa para mim…

O movimento na frente do supermercado era grande, pessoas com semblantes tensos saiam e entravam. Logo chegaria a minha vez.

As cestinhas e carrinhos que ficam logo na entrada da loja, não estavam disponíveis e assim que avistei um carrinho vazio vagando em uns dos corredores, tomei posse. Essa foi a minha primeira grande conquista. Estava indo bem.

De posse do meu possante (?) comecei a rodar pelas prateleiras das frutas. Achei peras, maçãs, uvas, kiwi…Mas onde estavam as bananas??? Sem bananas!

-Ok! Você venceu! Batata frita!

Só se for da congelada com gordura trans, pois a batata de raiz estava mais cara que a diária do Copacabana Palace na alta temporada.

Na falta da batata, fui buscar o arroz e encontrei-o com facilidade. Menos mal. Afinal, tenho tantas receitas boas para fazer com arroz, por que essa fixação em batata? É, precisamos ser flexíveis, tempos modernos ou seriam sombrios?

Fui buscar outro item indispensável na minha cozinha: pimenta dedo de moça. Nem de moça, nem de moço, de velha, de criança. Nadíca de pimenta, só as industrializadas. Onde já se viu, fazer um molho a “La Rabiatta” com pimenta do reino? Comecei a ficar tensa.

No setor de carnes, só os peixes congelados, aí comecei a pensar sério no meu projeto de ser vegetariana, mas logo lembrei que não há verduras também, então adiei esse projeto para um futuro mais distante.

O setor de laticínios estava em festa com queijo para dar e vender, ou melhor, só para vender. Comprei alguns gramas para caso precise fazer uma pizza na urgência da hora. Mas pizza sem tomate? Sem manjericão? O jeito foi apelar para os tomates pelados, porém, enlatados.

Comprei também um bom punhado de azeitonas gregas, essenciais na minha nada mole vida. Combinam bem com a massa que comprei para intercalar com o arroz. Massa e arroz farão parte da minha nova estratégia de guerra, só que agora, a guerra será, também, com a balança, pois haja carboidrato!

Comprei pão de cereais, iogurte….

De repente percebi uma corrida em direção ao setor de folhas. Segui o fluxo e quando me aproximei, as pessoas estavam pegando maços de manjericão com cara de poucos amigos.

-Manjericão cinza? – indaguei a uma colega de compras.

-É do Himalaia – ironizou.

Resolvi comprar o manjericão seco, bem como alho e cebola. Todos empacotados em saquinhos e desidratados.

-Oh vida!

Fui para casa, um pouco mais aliviada, pois já tenho comida para, pelo menos, uma semana.

Aliás, antes de sair de casa, verifiquei que ainda me restavam oito ovos na minha geladeira. Esses sim, são os verdadeiros ovos de ouro e se a coisa apertar,poderei trocá-los por um carro zero ou apartamento em frente à praia.

Ainda bem, que nem tudo está perdido!

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