Belém, 1908 a1998

Interior da Sinagoga Salat Al Azama, em Marrakech

Isaac Athias nasceu em Belém, no dia 15 de setembro de 1908 e logo após o ritual judaico da circuncisão, foi com a família para o interior, no Livramento do Ituquara, em Breves, pois seu pai tinha uma casa comercial que servia como atendimento aos seringalistas. Dentro desse tipo de comércio, existiam três classes de produtores que podiam ser separados em: seringalista, seringueiro e
aviador.

Seringueiro era conhecido por aquele que faz o trabalho de extração do líquido, o seringalista é o encarregado que tem como fun-ção fornecer todo o material necessário para que o seringueiro faça o seu trabalho e o aviador é o que avia esses produtos em troca de borracha. Seu avô e seu tio Isaac Roffé eram possuidores de uma grande casa comercial que fazia todo esse aviamento para os comerciantes locais do interior, como era o caso de seu pai.

O seu pai nasceu no Marrocos, em Rabat e com 8 anos de idade mudou-se para Portugal e chegou no Brasil quando tinha entre 13 e 15 anos de idade. A sua mãe Meriam Roffé Athias nasceu na cidade de Arzila, no ano de 1877 e veio para o Brasil quando tinha entre 16 e 17 anos, pois seu pai já se encontrava no país. Ele morou em Livramento do Ituquara até o seu tefilin, que são pequenas caixas que são atadas no antebraço direito e levadas à testa durante os momentos de oração, sendo colocado pela primeira vez aos 13 anos de idade na cerimônia do “Bar Mitzvá”. Livramento do Ituquara não era considerada uma cidade e sim uma localidade. Suas casas pareciam barracões grandes em cima do rio, sobre as estacas que serviam para proteger as residências contra a maré, que alternava de seis em seis horas entre alta e baixa.

A alimentação era toda feita no local e, frequentemente, era baseada em peixes e algumas aves. A família tinha uma facilidade na obtenção de peixes, pois eles tinham “cacui”, que nada mais era do que currais que serviam para a captura dos peixes, chegando a conseguir cerca de cem peixes por vez. Era bastante comum a existência de navios gaiolas, pois era através deles que a mercadoria chegava e saia da região, como é o caso da carne (alimento), a borracha e o sanabi que é um derivado da borracha. Esses navios, denominados gaiolas, faziam todo o trajeto até o final da linha, em aproximadamente 18 dias, mas o caminho de Belém até a casa de Isaac Athias durava apenas oito dias.

Devido à grande deficiência de ensino que a região de Breves possuía na época, algumas alternativas deveriam ser feitas para que o mínimo de estudo fosse alcançado, então, a família Portilho de Barros cedeu a sua casa para que os estudantes pudessem ter um espaço para o aprendizado.

Dada a localização e também as condições climáticas e geográficas da região, todo o percurso até a casa da família Portilho era feito de canoa, sendo realizado em aproximadamente uma hora. O horário de estudo era na parte da manhã e, logo após o almoço, era necessário encarar todo o caminho de volta. Toda essa dificuldade não durou muito tempo, pois não demorou muito para que seu pai, Fortunato Athias, cedesse parte do barracão onde moravam para a prefeitura de Breves, que decidiu utilizar o local para a instalação de uma escola. Toda a educação dessa escola era administrada pelo professor José Caetano de Sá, maranhense com mais de oitenta anos de idade e remanescente da escravidão do Maranhão. Foi nessa escola que Isaac realizou o seu curso primário.

Toda a educação judaica fora passada por seu pai e a circuncisão ou “Brit Milá”, assim chamado, era realizada por um “mohel” (pessoa habilitada para realizar o Brit Milá), que era trazido de Belém. Era costume o mohel que vinha de Belém em um navio com destino a Manaus, ficar hospedado na casa da família, retornando quando o navio estivesse fazendo o percurso de volta.

Existiam outras famílias judias na região, porém a distância era grande. Durante a realização das diversas festas, no próprio barracão, como por exemplo os Yamim Noraim e Pessach, era bastante comum juntar cerca de 100 pessoas, vindas de localidades distintas, sendo que alguns chegavam a viajar cerca de vinte horas. Como a sala do barracão era gigante e não existiam camas e sim redes, pode-se deduzir que era bastante comum que as famílias judias que vinham para as comemorações, dormiam no barracão da família.

Seu pai era bastante religioso e passava todos os ensina- mentos da religião judaica para os filhos, aproveitando que a região era livre para que todos pudessem exercer livremente as suas crenças. Um padre, chamado Emílio, era um grande frequentador da casa de Isaac Athias, e, sempre que fazia ronda na região, fazia questão de dormir no barracão da família, sempre com muito respeito.

A língua falada em casa era o português, porém, em algumas ocasiões, o “haquitia”, dialeto judeu falado em Marrocos, era utilizado. O “haquitia” pode ser entendido como uma mistura de árabe, espanhol e hebraico, sendo bastante utilizado em momentos onde a família necessi- tava dialogar sobre determinados assuntos onde existia a presença de estranhos.

Um costume da época era que seu pai pedia, quase toda noite, para que todos os seus irmãos, alternando o dia, lessem o jornal que chegava de quinze em quinze dias na região, fazendo com que todos eles ficassem informa- dos sobre o que estava acontecendo nos arredores. Logo após a Primeira Guerra, seu pai acabou perdendo quase toda a sua riqueza devido ao declínio da borracha, que estava com uma disparidade de preço entre a região e o porto, fazendo com que acontecesse uma queda geral.

Sua mãe, vendo a decadência em que a família se encontrava, resolveu ir até Belém e visitar a sua avó, onde recebeu a ajuda de cinquenta mil réis e foi a partir daí que ela foi levada, através do anúncio “Ensina-se indústria”, até um professor que lhe deu dicas de como aproveitar os recursos que ela tinha na região em que a família morava. Surgiu então a pequena fábrica de sabão, cujo nome era “Sabão de Cacau”, tornando-se, futuramente, a principal fonte de renda da família. As sementes de cacau eram coletadas em conjunto, ou seja, os irmãos uniam as forças para realizar o trabalho.

Enquanto dois remavam, os outros pegavam os “panelinhos” com a ajuda de uma vara, sendo que esse trabalho era realizado durante a ida e a volta da escola. Durante essas viagens, além da coleta de sementes para a utilização na fábrica de sabão, a alimentação também podia ser garantida, pois os irmãos aproveitavam para coletar o açaí. O tacacá também fazia parte da rotina de alimentação da família, com a mandioca ou macaxeira utilizada para preparar a farinha.

Aos 13 anos de idade, após o seu Bar Mitzvá e com a produção de sabão a todo vapor, Isaac mudou-se para Belém juntamente com seus irmãos mais velhos. Vendo os negócios da família melhorando, sua mãe decidiu ir mandando um filho de cada vez para a capital, onde três deles ficaram hospedados na casa da família de Elias e Sol Israel que recebia os meninos judeus vindos do interior. A família Israel que abrigava os meninos judeus era uma das famílias pioneiras que vieram para o Pará, sendo considerados ricos para a época, donos da firma “Israel e Companhia”. Como a crise da borracha atrapalhou e acabou com diversos negócios na região, era fato que a empresa do Sr. Elias também sofreria danos, então ele começou a trabalhar como ambulante e especializou- se na venda de botões para alfaiataria, percorrendo toda a cidade.

O preço que seus pais pagavam para que Isaac e seus irmãos ficassem hospedados na casa de Elias e Sol, era de cinco mil réis cada um, sendo essa quantia considerada muito dinheiro para a época. No período em que esteve hospedado na casa da família Israel, Isaac conseguiu terminar o primário e também realizou o curso comercial. Após alguns anos em que ele e seus irmãos já estavam instalados em Belém, sua mãe resolveu mudar-se para a cidade, porém seu pai ainda tinha alguns compromissos no interior, mas visitava a esposa e os filhos.

O esforço era grande, pois todos os irmãos que estavam na capital, tinham uma rotina de trabalho durante o dia e estudo na parte da noite. Logo veio o diploma na escola Prática de Comércio, como guarda livros, que hoje pode ser conhecido como contador. O seu trabalho em Belém do Pará durou anos, porém, mesmo com a formação, ele não atuou como guarda-livros, mas como balconista de ferragens. Por mais que os donos da loja em que ele trabalhava, tivessem oferecido para que ele fizesse parte do corpo de funcionários do escritório, ele negou, pois dizia que o valor pago como balconista, era maior do que como guarda-livros.

Quando chegou a Belém, existiam cerca de oitenta famílias que seguiam, rigorosamente, as tradições judaicas, com a presença de dois rabinos: Rabino Hamud e Rabino Arkain. Assim que os rabinos foram embora para o Marrocos, entre os anos de 1918 e 1921, instaurou-se uma queda do judaísmo na região, porém o Sr. Elias passou a ser o “chazan” (aquele que recita as bençãos e auxilia o rabino) da sinagoga, auxiliando também o ensino do hebraico para os meninos em geral. Ele possuía um extraordinário espirito religioso. Isaac Athias mudou-se para São Paulo, em 1945, casou-se com Amélia Dimenstein, e o seu falecimento ocorreu no ano de 1998, aos 90 anos de idade.

 

 

 

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