Béla Guttmann, o técnico judeu que revolucionou o futebol no século XX


Há seis décadas que os torcedores do Benfica carregam uma suposta maldição, mas foi preciso um escritor judeu apaixonado por futebol para conhecer a história do treinador Béla Guttmann, uma lenda do futebol português.

Com a biografia de David Bolchover os mitos e mistérios em redor da lenda começam a ser derrubados. O que se revela é uma estarrecedora fuga da morte, enquanto dançava com ela. É que Béla Guttmann foi também bailarino!

Béla Guttmann o ex técnico do clube Português Benfica morto em 1981 foi o primeiro treinador superstar do futebol que abriu caminho aos famosos treinadores da era moderna.

Sobrevivente do Holocausto, escapou por pouco à morte escondido num sótão perto de Budapeste, enquanto milhares de compatriotas judeus eram levados para o extermínio.

A sua vida profissional foi desde cedo ligada ao futebol, tendo passado por grandes clubes como jogador e posteriormente treinador. Em 1958 chegou a Portugal para treinar o F.C. do Porto, quando ganhou o Campeonato Nacional (1958-59). Na época seguinte foi o treinador do Benfica ganhando consecutivamente o Campeonato Nacional (1959-60/1960-61), a Taça de Portugal (1961-62) e a Taça dos Campeões Europeus (1960-61/1961-62).

Foi também pela mão de Guttmann que, em 1960, o famoso jogador português Eusébio ingressou no Benfica.
Após os êxitos alcançados, a recusa de um aumento motivou a saída do treinador. Na despedida este declarou: “Sem mim, nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra taça europeia!”, frase que ficou conhecida como a “maldição” de Guttmann.

É dele que os torcedores do Benfica lembram, quando enumeram cada uma das oito finais europeias já perdidas.
Consciente da dimensão sobrenatural que Guttmann exerce sobre o “karma” da nação benfiquista, Bolchover inicia a introdução do seu livro com um episódio em Viena.

23 de Maio de 1990: faltam apenas algumas horas para o Benfica jogar a sétima final da Taça dos Campeões e Eusébio dirige-se ao cemitério central de Viena.

A última derrota, dois anos antes, com o PSV Eidhoven, foi particularmente cruel: no desempate e depois de dez penaltis em que todos marcaram, Veloso, com oito anos no clube, foi o primeiro a falhar — selando assim a quarta derrota consecutiva numa final da Taça dos Campeões (quinta, se incluirmos a Taça Uefa, perdida em 1983). Foi um dos jogos mais surreais da história do futebol: em plena corrida, ou durante um simples drible, as chuteiras saltavam dos pés dos jogadores benfiquistas, como se uma multidão de duendes zombeteiros, agarrados às suas canelas, as descalçassem nas jogadas mais perigosas!

Mas voltemos a Eusébio e ao cemitério de Viena. Acompanhado do fotógrafo Nuno Ferrari (outro benfiquista ferrenho), Eusébio reza junto à lápide do homem que o revelou para o futebol mundial, quando era ainda adolescente. Eusébio, o mais famoso, o mais glorificado de todos os ídolos benfiquistas, está ali em nome da nação encarnada, para que de uma vez por todas a maldição fique enterrada junto do seu autor.

Em vão. Horas mais tarde, no Estádio do Prater, Frank Rijkaard, que nasceu no mesmo ano (1962) e na mesma cidade (Amsterdã) onde o Benfica ganhou a sua última final europeia, marca o único gol da partida. Outra coincidência: Rijkaard marcou no mesmo minuto de jogo em que Eusébio marcou o quinto gol, na final vitoriosa contra o Real Madrid. Só mais outra coincidência: o Prater foi o estádio onde Guttmann, em 1933, atuou pela última vez como jogador do Hakoah de Viena.

Afinal, quem foi o homem que ofereceu os dois únicos títulos europeus ao Benfica?

Em toda a sua vida, trabalhou em 15 países diferentes, entre a Europa, a América do Norte e do Sul, mas jamais lhe foi permitida a presunção de considerar-se um húngaro entre húngaros. Logo em 1919, um ano depois da independência húngara, sucederam-se as campanhas do “terror branco”, que levaram a cabo uma série de massacres junto da comunidade judaica (o seu líder, Miklós Horthy, haveria de exilar-se em Portugal). E no ano seguinte, o parlamento húngaro aprovou um decreto que fez baixar em 3/4 o número de estudantes judeus nas universidades.

Tal como revela Bolchover, foi quando Béla Guttman e o seu irmão emigraram para a atual Novi Sad, na Sérvia, onde abriram uma escola de dança.

Como jogador de futebol na Europa, Guttmann apenas pertenceu a dois clubes judeus: o MTK Budapeste (que durante o comunismo foi tomado pela AVH, a polícia secreta húngara), e o Hakoah de Viena (cujo emblema era a estrela de David, e que obviamente foi dissolvido pelos nazistas com a anexação da Áustria).

Durante os anos 20, o Hakoah jogou aquele que foi considerado à época o futebol mais evoluído na Europa. É impossível não pensar no Barcelona de Pep Guardiola ao ler um artigo de 1923, no Daily Mail, durante uma digressão à Inglaterra: “sem exibição de força bruta, sem pontapés à pressa, os jogadores funcionavam em conjunto, sem recorrerem a passes longos. Passavam a bola com ligeireza e aproveitavam bem os espaços.” George Kay, capitão do West Ham, diria ainda: “É a melhor equipe que eu já vi, e podem crer que já vi centenas de jogos.”

Bélla Guttmann com o time austríaco Halkoah

Na Áustria, entretanto, o ambiente era de cuspidelas e apedrejamentos. Uma crônica do diário Wiener Morgenzeitung, registrou: “Pessoas normalmente cumpridoras das regras da decência e boas maneiras tornam-se brutais terroristas nos jogos do Hakoah… houve uma verdadeira orgia de abusos, incluindo o uso repetido da expressão “porco judeu”, e por todo o lado se ouviam ameaças ferozes. É raro o jogo em que os jogadores do Hakoah não são insultados e ameaçados da forma mais vulgar. No seu próprio campo é necessário um pelotão de guardas montados para conter os espectadores.”

O sucesso desportivo de Guttmann no Hakoah foi recompensado com o convite à seleção húngara, para participar nos Jogos Olímpicos, em Paris. Havia mais dez jogadores judeus na equipe, mas foi um presente traiçoeiro. A equipe atravessou a Europa num navio em terceira classe e foi hospedada num hotel no centro da cidade, “barulhento e infestado de ratos”. Não lhes foi facultado um campo de treinos e acabou eliminado na segunda rodada, contra a seleção do Egito. No parlamento, o futuro primeiro ministro húngaro, Gyula Gömbös, não perdeu a ocasião de fazer uma declaração veladamente antissemita: “Os membros da nossa equipe não representam os húngaros, nem a nação, nem o desporto húngaro.”

Em 1992, Art Spiegelman ganhou o primeiro prémio Pulitzer atribuído a um livro de quadrinhos, sobre as memórias do seu pai na Alemanha nazista e em Auschwitz. Nesse livro, Maus, os judeus eram figurados como ratos; quanto a Guttmann, que nunca teve filhos, em 1924 pregava as ratazanas que apanhava no seu quarto de hotel à porta da delegação olímpica húngara, em Paris, para comunicar as condições a que estava sujeito.

A ignorância sobre o passado de Béla Guttmann não é exclusivamente português. Os vários perfis da World Soccer que lhe foram dedicados nos anos 60 tão pouco fazem alusão ao seu passado, como jogador ou como sobrevivente do holocausto. Tudo isso foi apagado, como se a Alemanha tivesse ganho a guerra.

No contexto do futebol, a “solução final” apagou mesmo da memória os judeus. A primeira biografia de Guttmann, publicada na Áustria em 1964, não faz uma única menção à palavra judeu, como explica Bolchover. Quanto ao que lhe aconteceu durante a guerra, fica resumido numa frase: “suportou nem mais nem menos sofrimentos e aflições do que os muitos milhões de judeus europeus.”

Guttmann, que era treinador da seleção austríaca, demitiu-se pouco tempo depois, “invocando antissemitismo na entidade que dirigia o futebol naquele país.” Sintomaticamente, na lápide da sua mãe, que morrera duas décadas antes, mandara acrescentar uma homenagem a mais três familiares, “que morreram no estrangeiro.” De fato, morreram na Polónia. Em Auschwitz.

E Guttmann, como conseguiu sobreviver? Bolchover cita um cardápio de artigos jornalísticos e todos apontam para a Suíça, mas os fatos que ele descobriu são ainda mais inacreditáveis. Depois de uma época ao serviço de um humilde clube holandês, o Enschede (atual Twente), regressou a Viena. E antes do exército nazista atravessar a fronteira, regressou a Nova Iorque, onde entre 1926-32 enriqueceu jogando futebol e como acionista de speakeasys (os clubes noturnos ilegais que vendiam álcool em plena lei-seca). Entretanto deu-se o crash da bolsa, perdeu as suas poupanças e nem dando aulas de dança conseguiu escapar da crise.

A segunda estadia em Nova Iorque, mesmo com um visto de residência permanente, foi ainda mais curta e infeliz. Tão infeliz que preferiu voltar à Hungria, onde ocupou o lugar de treinador do Ujpest, deixado vago por László Sternberg, um ex-colega da seleção e do Hakoah de Nova Iorque. E enquanto Sternberg partia para os EUA, à semelhança de milhares de judeus em fuga da Europa, Guttmann aterrou a tempo de levar o Ujpest à conquista da Taça Mitropa, competição veterana da Liga dos Campeões.

Logo a seguir à conquista do último grande torneio europeu realidado antes da guerra, Guttmann foi demitido, por via da Primeira Lei Judaica que limitava o acesso ao mercado de trabalho dos judeus. O presidente do clube, Lipót Aschner, também judeu, haveria de ser deportado cinco anos depois para Auschwitz. Na sua casa — relata Bolchover — instalou-se Adolf Eichmann, o responsável pelas deportações.

Nos primeiros anos da guerra, Béla Guttmann trabalhou como olheiro do Ujpest, ou, para usar a expressão de Aschner, foi o seu “consultor secreto”. Entretanto, conheceu aquela que viria a tornar-se a sua mulher, Mariann Moldoványi, uma católica filha de um cabeleireiro. Também esteve em vários campos de trabalho, dos quais fez um relato sumário numa das últimas entrevistas que deu: “O nosso sargento tinha servido na legião Estrangeira, e foi lá que aprendeu a torturar pessoas… fazia-nos carregar pedras para o bunker dele e tínhamos que ir sempre gritando: ‘somos merda, somos merda!’ Seria eu um futebolista da seleção nacional, seria eu um treinador de sucesso? Seria eu um homem? Pouco importava, tínhamos de esquecer isso tudo.”

Para homens em idade ativa, os grupos de trabalho escravo eram a antecâmara das deportações: “A nossa companhia foi metida num comboio e levada para a Alemanha. Mas antes disso, cinco de nós saltámos de uma janela do primeiro andar e fugimos do acampamento. Estudamos a área, para vermos quando os guardas eram rendidos, e já tínhamos remexido o solo para não torcer os tornozelos”. Entre os companheiros de fuga, Guttmannn lembrou o ator Sanyi Gàl e Ernö Egri Erbstein, ex-treinador do Torino. Mas mesmo 35 anos depois, não quis revelar quem o ajudou a esconder-se: “Houve gente boa que correu riscos e me salvou.”

Entre essa “gente boa” estava certamente Pál Moldoványi, irmão da sua mulher, que o escondeu no sótão do cabeleireiro que herdara da família. A história deste esconderijo, contada pelo sobrinho de Guttmann, é o depoimento mais belo do livro:

“Quando se olhava da porta do sótão, só se via uma divisão comprida, não se vislumbrava o cantinho que ficava lá para trás. O meu pai, sempre que ia lá, levava uma prancha de madeira, para não levantar pó do chão e para não deixar pegadas.”

Há um trabalho absolutamente admirável, pelo que representa de resgate cultural para a história do futebol, que já pontuava a biografia de Detlev Claussen, e a que agora David Bolchover, especialista em temas de “management” empresarial, dá um impulso significativo: trata-se de inventariar não só os grandes jogadores judeus do centro da Europa, mas, acima de tudo, os treinadores judeus que deram um impulso determinante para o desenvolvimento do futebol moderno, naquilo que ele significa de sistemas táticos, modelos de jogos, métodos de treino e psicologia motivacional. Mesmo a famosa seleção húngara que maravilhou o mundo nos anos 50, com o seu esquema de jogo em 4-2-4, era já herdeira dessa escola de treinadores judeus que, partindo da Áustria e da Hungria, se espalhou por grandes equipes alemãs, italianas, brasileiras e argentinas.

Béla Guttmann, de resto, treinou ainda na sua juventude Puskás e Bozsik, na sua passagem pelo Kispest (que haveria de ser rebatizado Honved, já durante a era comunista).

A sua passagem pela Itália, onde treinou quatro equipes, entre as quais o Milan AC, é polêmica, envolvendo um processo criminoso, por atropelamento e fuga. Mas no Brasil, onde treinou o São Paulo (com o qual conquista o campeonato paulista), Béla Guttmann começa finalmente a deixar marcas indeléveis da sua influência. Como ignorar que o modelo de jogo que ali instaura, é o mesmo que o Brasil apresenta no Mundial de 58 em que se sagra pela primeira vez campeão do Mundo?

Já em Portugal, depois de oferecer um campeonato ao FC Porto, Guttmann recupera o velhinho esquema em WM, com cinco atacantes, para otimizar a espantosa geração de jovens jogadores que descobre no Benfica. Numa época que já faz a transição para esquemas defensivos, a sua principal inovação é o blitzkrieg aplicado ao futebol: um vendaval de jogadas rápidas ofensivas num curto espaço de tempo, que “espalham o caos” nas perplexas defesas adversárias (algo que os adeptos de futebol só voltarão a ver em anos muito recentes). Suprema ironia: uma das primeiras equipes a ser derrotada por semelhante tática é o Ujpest, equipe que treinou antes e depois da guerra, e em cuja cidade se escondeu durante os meses das deportações (no tal sótão por cima de um cabeleireiro).

Béla Guttmann’ – o livro – não é uma biografia convencional, ou, em outra perspectiva, é bem mais do que uma biografia. Com o personagem tendo nascido no último ano do século XIX, sua trajetória acaba naturalmente personificando o próprio desenvolvimento do futebol no século seguinte, em diversos aspectos – a rápida massificação do futebol após seu nascimento em berço esplêndido; a evolução das regras e dos esquemas táticos; o sionismo/antissemitismo que envolviam os boleiros de origem judaica; o crescimento da importância de competições como a Taça dos Campeões Europeus – a atual e badaladíssima Uefa Champions League/Liga dos Campeões da Europa -, bem como a morte de outros torneios históricos, como a Mitropacup. O livro repassa ainda curiosidades pouco conhecidas mesmo por estudiosos do esporte, como o boom do soccer nos Estados Unidos de meados dos anos 1920, quando uma primeira onda de jogadores-imigrantes visualizavam no mercado ianque o eldorado da bola, tal como hoje seria a Inglaterra ou a Espanha.

A biografia de Bélla Guttmann pode ser encontrada na Livraria (R$ 39,00)

Um comentário

  1. Ricardo Weiss
    Ricardo Weiss 10 de abril de 2018 at 21:21 |

    Maravilhosa a matéria para os amantes de futebol.

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