Amor e liberdade

Houve época em que o supermercado Mar e Terra, na Rua Senador Vergueiro, oferecia um pinto na compra de 2 dúzias de ovos. Chegamos a ter 12 pintos na nossa varanda. Era fácil criar e educar pintos. Uma lâmpada para aquecê-los. Água. Milho. E ar livre, o que tínhamos de sobra no décimo terceiro andar, juntinho ao céu. Na varanda da Senador Vergueiro éramos pessoas coladas ao céu.

Quando voltava do colégio pensava no tanto que eram afortunadas as criaturas que não precisam lembrar-se de portar a caderneta escolar e cumprir tarefas, matemática, português. A tarefa dos pintos era viver. Viver pura e essencialmente é a maior das liberdades.

Embora livres, eu temia pelos pintos. Na minha ausência e no cumprimento das minhas obrigações eu temia que um passarinho ou um gavião os devorassem. Tão mágica e bruta é a natureza. Eu sentiria pela morte dos pintos. E choraria de uma tristeza tão profunda que confundiria a dor deles à minha dor, pois eu aprendia que amor também dói.

Os pintos cresceram. E quando já quase se fizeram galos e galinhas, as penas brancas flanando feito flocos de neve pela nossa varanda, demos os pintos. Toda liberdade, aquele amor sem igual, fruto da compra de dezenas de ovos, toda coexistência indo embora. A despedida foi a parte mais cruel. Era preferível estar na escola, matemática, português, do que imaginar os pintos, cria nossa, amor e liberdade, imersos em alguma panela.

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