Amigos para sempre


Esses tempos entrantes de primavera trazem um sentimento de nostalgia e finitude, que se aprofundam, mais diante do que foi vivido, do que a viver.

Na lembrança, grandes amizades conquistadas, meio ao sabor de nossas vivências, sem nada planejado. Vínculos de afeto, realmente fortes, vão se fazendo e se consolidando, independente da proximidade física ou da frequência dos encontros. Me refiro a um grupo muito especial de amigos gaúchos, que trago, para sempre, do lado esquerdo do peito.

O que nos uniu, a princípio, foi um ideal, o trabalho e o amor por uma instituição feminina enorme, em todos os sentidos, que se revelou pródiga em amalgamar laços inquebrantáveis de amizades.

Assim, a WIZO BRASIL me levou a conviver com três casais adoráveis, muito antes do uso intensivo das mídias sociais. Quando o vai e vem das ideias e dos sentimentos eram transportados em aviões entre o Rio e Porto Alegre, tanto por razões institucionais, como emocionais.

Os encontros foram se tornando cada vez mais uma festa, tal a nossa identidade de valores e visão de vida. E, principalmente, pela nossa capacidade de respeitar as opiniões divergentes.

Cada casal contribuía com a sua personalidade para a riqueza das conversas, que varavam a madrugada. Todos de bem com a vida, fazendo da filantropia e do trabalho voluntário o fio condutor de nossa proximidade.

A dupla mais alegre e mais engraçada, como que adivinhando a exiguidade de sua vida, era a que mais nos encantava com os causos, sempre contados de forma divertida. Além disso, admirava a beleza e a elegância da Suzana, esposa do Ary, que chamava atenção, com seus cabelos louros fartos e seus olhos azuis. Além do seu jeito de falar idish. Impagável!

O outro casal de gaúchos se destacava pela racionalidade, pelo poder de decisão, principalmente da esposa. Matilde, por possuir uma personalidade combativa conquistou a liderança de várias organizações judaicas, de dimensão regional e nacional. Um hábito seu, que não esqueço, era o de fazer questão de sentar-se do lado do marido, Pedro, nos restaurantes, não importando o número e a arrumação das pessoas, em torno de uma mesa, em qualquer parte do mundo.

O terceiro casal era de um discernimento e equilíbrio exemplar. Transpirava bondade. Sempre recorria a Terezinha, esposa do Natan, quando ficava enredada na burocracia própria da instituição. Ela, até hoje, é de uma meticulosidade incrível na análise dos documentos. E o seu acolhimento não tem tamanho.

Mas o que mais eu admirava, em nossa convivência, era a cumplicidade entre os homens, sempre tentando agradar às suas mulheres. Chegavam ao Rio, que era a cidade preferida do trio, e não paravam de fazer programas. Confesso que enquanto eu e meu marido trabalhávamos, ficava difícil acompanhar o ritmo deles. A praia de Ipanema, na altura do posto 10, era o point das manhãs, depois do convite para um café na cobertura de um hotel na Prudente de Morais.

No meio da agitação, sempre reservava uma noite para que fossem na minha casa. Era a minha preferida. Os homens, meio formais, vinham de blazer e as mulheres traziam sempre uma lembrança. Super gente fina!

O único arrependimento, que ficou, foi não ter aceitado os insistentes convites para passar uma temporada com eles, em Capão da Canoa. Imagina ir para o Rio Grande do Sul, em pleno verão. Prometíamos, mas não cumpríamos.

Se pudesse voltar no tempo, pegaria um voo, hoje mesmo, para gozar essas companhias em qualquer estação do ano, em todos os lugares.

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