A rosa dentro da aurora

Bem, votamos e novos políticos foram eleitos. Uma faxina aconteceu em vários cargos, em outros o povo manteve alguns políticos por equívoco, todos com prazo vencido. No total, as coisas se arranjarão. Em tempo e hora. No Rio de Janeiro, sempre com opções terríveis, o governador eleito precisará ter seu choque de realidade e afastar algumas de suas mirabolantes ideias para acabar com o crime. Talvez criar empregos e muita escola pudessem ajudar mais, antes de ‘abater’ os perigosos. Muita escola, muita, e de qualidade, pode sim, ajudar. E criar empregos, muitos empregos. Milhares, milhares e mais milhares. Nisso deve ocupar sua equipe. Tomara.

O presidente eleito preocupa as pessoas, a maioria ainda em ritmo de campanha. Já passamos por vários tipos de chefes de Estado, de diferentes quadros, e sobrevivemos. Bolsonaro está escolhendo seus ministros e, pelo visto, com cautela. Sergio Moro largou 22 anos de justiça? Joaquim Barbosa também largou o STF, cargo vitalício e de ótimo salário. Dizem que ele e a família foram ameaçados. Sairia candidato à presidência, mas voltou atrás. De novo os boatos foram de ameaça. Na hora H, o voto ao que condenou. Melhor o silêncio?

Sergio Moro, nesses anos como juiz, mostrou ser homem capaz e íntegro. Se não foi sempre perfeito, foi ao escorreito que sempre aspirou. ‘O juiz é condenado onde o culpado é absolvido’- já ensinava Pubílio Siro no século I a. C. Sergio Moro fez sempre justiça. Com carta branca do presidente, já fez o capitão ver que, pelo menos duas de suas ideias, terão de ser revistas.

Aprendi que a expectativa do melhor pode ajudar a trazer o melhor. Melhor isso que a lei de Murphy. Isso de quanto pior melhor é coisa de quem não torce pelo país e por sua gente. Oposição serve para manter o equilíbrio e vigiar o Poder. Havia queixas perenes de que a Oposição não funcionou nos últimos 10 anos. Sem muita queixa. Por outro lado, alternância de Poder também é saudável numa democracia. Isso de plano de poder de 20 anos ou de perguntar a um ditador como se manter no trono por 37 anos é coisa de déspotas.

E ninguém nunca reclamou. Que povo, afinal, é esse? Por que manter a manipulação?

Espero ver nossa Educação melhorar. Crianças falando um belo português, lendo muito. Na educação, ‘não é uma alma nem um corpo que se forma – é um homem; não se deve separá-los’, dizia Montaigne. E eu repito até cansar. Aguardo com ansiedade o uso desta fórmula. O exemplo dado, a revelação que faz o sábio, a alma de uma sociedade, bases de uma Educação necessária e já retardada por demais. Melhor construir escolas para crianças do que prisões para homens. Ditados antigos e abandonados, que sempre esperamos ver recuperados.

Passei 14 anos dando aulas. Depois 18 na advocacia. Retornei às Letras, acumulando aulas (na grande maioria gratuitas, com o mesmo empenho) e escrevendo. Inclusive para o teatro. Educação e Cultura. Torço, agora, para que nossos teatros sejam mais bem cuidados; para que escolas levem seus alunos a museus e a teatros; para que haja sempre o espírito do saber imbuído em nossas novas lideranças. Porque ‘o teatro toma o pulso da civilização e da capacidade moral de um país. O teatro é coisa muito séria. É a mais extensa e concorrida escola pública da boa ou da má educação do povo’. A frase é de Joaquim Manuel de Macedo, e vem do século XIX. Mas mantém-se atual. Deve ser seguida.

Para terminar, escolho uma frase de Cecília Meireles sobre Rabidranath Tagore, o autor que Janusz Korczak escolheu para entreter suas crianças, decerto pelo teor de sua sabedoria indiana, que tanto se adaptava ao momento vivido no gueto polonês:

‘Chegaremos de mãos dadas

Tagore, ao divino mundo

Em que o amor eterno mora

E onde a alma é o sono profundo

Da rosa dentro da aurora’.

Shalom!

 

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