A história de um polvo

Diz o Google, que os polvos são moluscos cefalópodes, que apresentam grande capacidade de natação e camuflagem e destacam-se por sua impressionante inteligência.

Não se assustem. Não vou descrever todas as espécies de polvos, mas contar a história de um só. Ele chegou aos costados de nosso país no início do século passado. Chegou sem querer chegar. Foi obrigado pelas correntes marinhas, que reviravam os oceanos, a procurar um abrigo, que pudesse garantir a sua sobrevivência, e mais, que lhe desse liberdade para levar uma vida pacífica, longe das turbulências e das ameaças de extermínio, que grassavam no Mar do Norte.

Considerava-se inteligente e safo. Enfrentava os desafios do novo habitat, como a maioria dos animais migrantes. Nunca renegou as suas origens e fazia questão da sua descendência se orgulhar de seus antepassados.

Utilizava os seus tentáculos para aproximar-se de seus iguais e diferentes. Era tolerante, apesar de conviver em meio a polvos, que nutriam preconceitos e discriminavam os que vinham de longe.

Era meio possessivo na proteção de suas crias. Aliás, desdobrava-se para que elas conseguissem aprender tudinho, que fosse possível para a sua espécie. Admitia, até que fossem buscar conhecimentos em mares nunca antes navegados.

Com o passar do tempo, os seus tentáculos começaram a crescer e foram assumindo vontade própria. No início, se vangloriava dessa sua habilidade. Imagina ter a capacidade de nadar em posições opostas, cada uma acenando com um norte, que tornava a sua trajetória tão diversa, quanto divertida. Aquela desordem de ordens e contraordens estava fazendo com que o nosso polvo, de vez em quando, perdesse o seu rumo.

Parecia que tinha voltado à adolescência, que nem teve, por que nesse tempo, viveu aprisionado. Os seus tentáculos cada vez mais agitados já nem se cumprimentavam. Cada um tinha o seu rótulo. Desde o sol nascer até ele se pôr, as águas à sua volta rodopiavam alucinadamente diante das agressões, cada vez mais violentas, que partiam das extremidades do seu próprio corpo. Eles estavam se automutilando.

Tanta luta pela sobrevivência, tanta crise enfrentada com os tentáculos pequenos, humildes, mas unidos, para desembocar, quando se sentia poderoso e independente, numa rede rota de barco pesqueiro, que nem mesmo se interessou em separar os seus tentáculos, mais à esquerda ou à direita, mais conservador ou mais progressista, mais autoritário ou mais liberal.

Afinal, foi jogado de volta para o mar. Estava tão mutilado, que nem para carniça estava servindo. Os rótulos ficaram à deriva. Mas um dos seus tentáculos, num último esforço, ainda escreveu um texto de protesto pelo acontecido.
E não é que ele ainda foi contestado…

 

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